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Em 2020, diplomatas americanos se espalharam pela Ásia para alertar governos sobre um cabo de fibra óptica.
O SEA-ME-WE 6 tem cerca de 21.700 quilômetros de cabo submarino, contando as ramificações, e vai de Marselha a Singapura atravessando o oceano Índico, com pontos de chegada em mais de uma dúzia de países que, somados, reúnem mais de um quarto da população mundial. A proposta mais barata veio da HMN Technologies, antiga Huawei Marine Networks, que a Huawei vendera à empresa chinesa Hengtong Optic-Electric num acordo fechado em 2019. Por quase todos os critérios, a HMN ia ganhar. Então o Departamento de Estado entrou em cena. Embaixadas americanas avisaram os membros do consórcio de que, se aceitassem o contrato da HMN, sofreriam consequências, possivelmente até sanções. Em fevereiro de 2021, a licitação foi reaberta. A SubCom, de Nova Jersey, cuja proposta era mais cara, ficou com o contrato. Washington havia recorrido a embaixadores, advertências formais e à ameaça de punição financeira, tudo por causa de quem estenderia um cabo de fibra óptica no fundo do mar.
A explicação habitual para uma briga como essa é a vigilância: equipamentos chineses em infraestrutura crítica poderiam abrir uma porta para a inteligência chinesa. Isso é parte da questão. O que está em jogo, porém, é maior: quem controla a arquitetura física e lógica que torna possível a própria conectividade global da internet, e o que acontece com essa arquitetura quando os países que a constroem já não compartilham a mesma ideia de para que serve a internet.
A história errada
O aparato chinês de controle de conteúdo, o Grande Firewall, é extenso e bem documentado: o envenenamento de DNS responde às consultas sobre domínios bloqueados com endereços forjados que não levam a lugar nenhum; o bloqueio de IP impede a conexão direta com servidores estrangeiros; a inspeção profunda de pacotes vasculha o tráfego em busca de palavras-chave e interrompe as conexões que as contêm. Centenas de milhões de pessoas na China não conseguem acessar o Google, o Facebook ou o New York Times sem uma VPN, e as VPNs funcionam até o dia em que o governo decide que não vão mais funcionar.
Mas o Grande Firewall age sobre o tráfego enquanto ele passa: forja respostas, derruba conexões e filtra conteúdo. Por mais eficaz que seja, deixa intocadas as perguntas sobre quem controla a infraestrutura de roteamento, quem mantém os sistemas de nomes que permitem encontrar cada destino endereçável, quem define os padrões técnicos que determinam qual equipamento pode se conectar a qual, quem é dono dos cabos que levam o tráfego de um continente a outro.
A internet que a maioria das pessoas conhece, feita de páginas, aplicativos, vídeos em streaming e e-mail, roda sobre uma pilha de infraestrutura que elas nunca veem. A censura decide o que as pessoas conseguem alcançar por meio dessa pilha. Se a internet continuará sendo um sistema único ou se partirá em duas depende de quem constrói e governa a própria pilha.
Dois modelos, uma lista de endereços
Desde 1998, o sistema de nomes e números da internet é administrado pela ICANN, a Internet Corporation for Assigned Names and Numbers. É essa infraestrutura que coordena os nomes de domínio, os blocos de endereços IP e os registros de parâmetros de protocolo. A ICANN, uma organização sem fins lucrativos da Califórnia, foi criada em parceria com o Departamento de Comércio dos EUA, que a contratou para executar as funções da IANA: as operações técnicas que mantêm a zona raiz do sistema de nomes de domínio. A National Telecommunications and Information Administration (NTIA), órgão do departamento, detinha a autoridade de supervisão sobre essas funções. O arranjo sempre foi pensado como provisório e, enquanto durou, as operações técnicas no centro de uma rede global ficaram sob a supervisão de um único governo.
O modelo rival passa pela UIT, a União Internacional de Telecomunicações, agência da ONU fundada em 1865 para coordenar a infraestrutura telegráfica entre Estados soberanos. Os governos que defendem sua causa por meio dela sustentam que a governança da internet cabe aos Estados, e não a empresas ou a “comunidades multissetoriais”, e que cada nação tem autoridade legítima sobre a infraestrutura de internet dentro de suas fronteiras. O modelo fala em soberania e, na prática, entrega aos governos o controle das redes dentro de suas fronteiras.
O conflito veio à tona em dezembro de 2012, em Dubai. Na Conferência Mundial de Telecomunicações Internacionais, um bloco de países que incluía Rússia, China, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita defendeu revisões do Regulamento das Telecomunicações Internacionais que teriam dado aos governos uma autoridade muito maior sobre a internet, inclusive sobre seus nomes, números e endereçamento. A proposta mais ambiciosa foi retirada, e a menção à internet sobreviveu apenas numa resolução não vinculante, mas isso bastou para rachar a conferência. O tratado revisado foi assinado por 89 Estados. Cinquenta e cinco, entre eles Estados Unidos, França, Alemanha e Reino Unido, recusaram-se a assinar, e a divisão nunca se fechou.
O bloco da soberania tinha uma queixa real e a usou de forma estratégica. A supervisão da NTIA sobre a ICANN significava, em termos estruturais, que o governo americano ocupava uma posição de última instância sobre a lista de endereços da internet. Então, em 2013, as revelações de Snowden mostraram a NSA explorando outra vantagem americana: o fato de que uma parcela enorme dos dados do mundo passa por empresas americanas e por cabos ligados aos EUA. Tecnicamente, uma coisa não tinha nada a ver com a outra; politicamente, as duas se fundiram numa única acusação, a de que a internet era um instrumento americano. A queixa era legítima, mas dizia respeito à vigilância americana; não demonstrava que os Estados deveriam controlar sua própria infraestrutura de internet, que foi a conclusão tirada pelo bloco.
O fator Snowden
Quando o PRISM foi revelado, em junho de 2013, o modelo multissetorial liderado pelos EUA perdeu credibilidade considerável junto aos países indecisos. A NSA tinha acesso aos dados que circulavam por empresas de internet americanas, a mesma infraestrutura que o modelo multissetorial havia confiado a empresas americanas. A presidente do Brasil, Dilma Rousseff, disse isso com todas as letras na Assembleia Geral da ONU em setembro daquele ano: os EUA tinham explorado sua posição estrutural para fazer vigilância em massa. O argumento mais forte a favor da soberania dos Estados sobre a internet veio da conduta do governo americano.
A parte legítima dessa queixa foi resolvida em outubro de 2016, quando o contrato da NTIA com a ICANN expirou e não foi renovado. Depois de um processo multissetorial de dois anos, as funções da IANA passaram a um órgão conduzido pela comunidade, e a autoridade de última instância do governo americano sobre a lista de endereços da internet terminou formalmente. A campanha continuou. Rússia e China seguiram pressionando nas conferências plenipotenciárias da UIT de 2014 e 2018 e, em 2022, a Rússia lançou um candidato a secretário-geral da UIT, que perdeu para Doreen Bogdan-Martin, apoiada pelos EUA, por 139 votos a 25. Washington venceu aquela rodada, mas no mesmo ano uma força-tarefa reunida pelo Council on Foreign Relations, o think tank americano de política externa, concluiu que a era da internet global havia acabado.
Depois que a transição da IANA respondeu à queixa sobre a supervisão americana, o que restou da tese da soberania foi a autoridade do Estado sobre a infraestrutura de informação, o que na prática significa a capacidade de monitorar, filtrar e cortar os fluxos de informação que chegam aos cidadãos.
Quem é dono do fundo do mar
Pela maioria das estimativas, mais de 99% do tráfego intercontinental de internet passa por cabos submarinos. Em 2026, há mais de 600 sistemas ativos e planejados; os satélites carregam apenas uma fração mínima. Na maior parte da travessia oceânica, os cabos costumam ter mais ou menos a grossura de uma mangueira de jardim e repousam diretamente sobre o leito do mar profundo, com camadas extras de blindagem perto da costa. Ficam praticamente invisíveis até se romperem ou até alguém ameaçar sancionar as empresas que os constroem.
A HMN Technologies entrou na construção de cabos submarinos como Huawei Marine Networks por volta de 2008 e conquistou uma fatia de mercado expressiva graças a preços competitivos e competência técnica. Então o governo americano passou a tratar os contratos de cabos como uma frente da disputa tecnológica mais ampla com a China. O SEA-ME-WE 6 foi o exemplo mais contundente, mas não o único. A intervenção dos EUA atingiu pelo menos seis projetos de cabos na Ásia-Pacífico ao longo de quatro anos. O método era sempre o mesmo: autoridades americanas avisavam os membros do consórcio sobre as consequências e esperavam que eles reconsiderassem.
O efeito sobre o roteamento é físico e duradouro. No Sudeste Asiático, as reivindicações da China no mar do Sul da China, conhecidas como Linha de Nove Traços, e a insistência de Pequim em aprovar obras de cabos mesmo fora de suas águas territoriais reconhecidas atrasaram o cabo SJC2 em vários anos. Também levaram ao desvio de pelo menos dois sistemas de cabos, o Apricot e o Echo, que passaram a contornar a Indonésia em vez de cruzar o mar do Sul da China. Evitar a área tem um preço: rotas mais longas, licenças mais lentas e obras mais caras.
A vigilância faz parte da questão da infraestrutura física. Qualquer um com acesso a um cabo, seja no próprio cabo, seja na estação de aterragem em terra onde ele chega à costa, pode interceptar o tráfego. Um pequeno número de cidades e países abriga a maioria das estações de aterragem; quem controla esses gargalos em terra decide quem pode grampeá-los. O GCHQ britânico, em parceria com a NSA, fez exatamente isso em estações de aterragem no Reino Unido.
Mas a propriedade dos cabos também determina o roteamento, a latência e o custo, de modo que segurança e economia não se separam com facilidade. Quando os EUA tiram um fornecedor chinês de um consórcio de cabos, tomam ao mesmo tempo uma decisão de segurança e uma decisão comercial, e o cabo resultante carrega essa escolha enquanto estiver em operação.
Em agosto de 2025, a FCC formalizou essa lógica. Adotou regras que estabelecem uma presunção de indeferimento para pedidos de licença de aterragem de cabos apresentados por entidades controladas por adversários estrangeiros designados, e passou a exigir que todo requerente certifique que seu cabo não usará nenhum equipamento ou serviço da Covered List da FCC, a lista negra de Washington de equipamentos e serviços de telecomunicações considerados um risco inaceitável à segurança nacional. Os licenciados também precisam certificar que têm planos de gestão de riscos de cibersegurança e de segurança física. As regras miram os próprios cabos, que transportam quase todos os dados que chegam aos Estados Unidos vindos de outros continentes.
Interceptação de cabos: uma história
Em 5 de agosto de 1914, um dia depois de a Grã-Bretanha declarar guerra à Alemanha, o navio lança-cabos britânico Alert cortou os cabos telegráficos submarinos que ligavam a Alemanha aos Estados Unidos. A Alemanha foi obrigada a recorrer ao rádio e a cabos de outros países, um tráfego que a Grã-Bretanha podia interceptar. Durante a Guerra Fria, a Operação IVY BELLS, da Marinha dos EUA, grampeou cabos submarinos soviéticos no mar de Okhotsk, gravando comunicações que eram recolhidas por mergulhadores enviados de submarinos. O programa TEMPORA, do GCHQ e da NSA, revelado por Snowden em 2013, não envolvia nenhuma invasão hacker: grampeava sistematicamente cabos de fibra óptica em estações de aterragem no Reino Unido, com a cooperação das empresas que os operavam.
A fratura na lista de endereços
Um cabo determina se os dados conseguem viajar. O Sistema de Nomes de Domínio determina se eles podem ser encontrados. O DNS é a lista de endereços da internet: digite um nome de domínio, e o DNS o converte num endereço IP. Esse processo de resolução começa nos servidores raiz, que ficam no topo da hierarquia e apontam aos resolvedores o domínio de primeiro nível certo. Existem 13 identidades de servidor nomeadas, operadas por 12 entidades (nove americanas, duas europeias e uma japonesa) e replicadas em mais de 2.000 locais pelo mundo.
A Rússia concluiu que não pode depender dessa hierarquia. Sua lei da internet soberana, em vigor desde novembro de 2019, exige equipamentos de inspeção profunda de pacotes instalados em pontos de estrangulamento sob o controle do Roskomnadzor e cria um sistema nacional de DNS capaz de resolver domínios russos sem consultar os servidores raiz internacionais. O resultado é a arquitetura de uma internet separável, capaz de continuar funcionando se a Rússia cortar a conexão com a rede global, e a partir da qual a própria Rússia pode fazer o corte.
A Rússia testou essa arquitetura de 15 de junho a 15 de julho de 2021, com a participação de todas as grandes operadoras de telecomunicações do país. Resultados preliminares divulgados pelo diário de negócios russo RBC consideraram os testes bem-sucedidos, inclusive um teste da capacidade de desconectar fisicamente a internet russa da rede global. O sigilo do processo limita qualquer verificação independente dessas afirmações. Há menos dúvida sobre a arquitetura em si, que a lei exige e que já está em operação, e sobre a intenção da Rússia de usá-la.
A abordagem da China é diferente. Em vez de construir uma camada de roteamento separável, ela mantém os dados em casa. A Lei de Cibersegurança chinesa, em vigor desde 2017, obriga os operadores de infraestrutura crítica de informação a armazenar dentro da China os dados pessoais e os “dados importantes”. O efeito jurídico é que categorias significativas de dados sobre usuários e operações chineses só podem sair do país depois de passar por uma avaliação de segurança do governo.
Desde 2015, a Rússia exige que os dados pessoais de seus cidadãos sejam coletados e armazenados primeiro em bancos de dados fisicamente situados na Rússia, e só depois, sob regras próprias, possam ser transferidos para o exterior. O modelo se espalhou: no início de 2023, havia 100 medidas de localização de dados em vigor em 40 países, e mais de dois terços delas combinavam exigências de armazenamento local com restrições aos fluxos transfronteiriços de dados.
DNS soberano somado à localização de dados resulta numa arquitetura de rede separável e, como ela já foi legislada, instalada e, no caso da Rússia, testada em operação, a internet já está em grande medida fraturada.
Como funcionam as zonas raiz do DNS
Quando seu computador quer acessar um site, pede a um resolvedor de DNS o endereço IP do domínio. Esse resolvedor, se não tiver em cache nem a resposta nem os servidores do domínio de primeiro nível, consulta um servidor de nomes raiz, uma das 13 identidades de servidor raiz que sabem quais servidores têm autoridade sobre cada domínio de primeiro nível. A zona raiz é mantida pela ICANN. O DNS nacional da Rússia foi construído para que, se o país for desligado ou se desligar por conta própria, os resolvedores russos possam continuar respondendo a partir de cópias domésticas da raiz e das zonas .ru, .su e .рф. Nesse cenário, os serviços cujos servidores e dependências estão dentro da Rússia podem continuar funcionando para os usuários de lá, tudo o que depende de servidores no exterior deixa de funcionar para eles e, visto de fora, a internet russa se apaga. Um filtro de conteúdo bloqueia sites específicos. Isto é separação topológica: o equivalente lógico de duas internets separadas que usam os mesmos protocolos de base, mas que, por sua estrutura, não conseguem se encontrar.
Os padrões, a camada mais profunda
Os cabos transportam os dados e os sistemas de nomes encontram os endereços, mas são os padrões que determinam o que os dados são, como são formatados, quais protocolos regem sua transmissão e qual equipamento é capaz de processá-los.
A premissa de que os padrões técnicos são apolíticos é uma relíquia da época em que as organizações que os definiam eram dominadas por engenheiros de um punhado de países ocidentais e do Japão. A IETF funciona por “consenso aproximado e código que roda”: conduzida por engenheiros, de baixo para cima, resistente à captura pelo Estado. A UIT é um organismo criado por tratado, no qual quem vota são os Estados-membros. Os dois modelos de governança não são equivalentes e, em algumas áreas, produziram padrões diferentes. A disputa sobre qual modelo define os padrões da internet é também uma disputa sobre quem controla a arquitetura das comunicações globais.
O envolvimento da China com os organismos de normalização é um investimento estratégico de décadas, com resultados mensuráveis. Na Organização Internacional de Normalização (ISO), o número de secretarias de comitês e subcomitês técnicos ocupadas pela China cresceu mais da metade entre 2011 e 2021. Alemanha e Estados Unidos ainda detêm mais secretarias: em 2021, a Alemanha tinha 132 secretarias da ISO, os EUA, 98, e a China, 68. Mas a contagem de nenhum outro grande país havia crescido nem de longe tão depressa naquela década.
No 3GPP, o organismo que elabora as especificações técnicas do 5G, representantes chineses ocupavam mais de um terço dos cargos de presidente e vice-presidente de seus grupos técnicos em outubro de 2021, mais do que qualquer outro país, e, em dezembro de 2021, os membros votantes chineses superavam os americanos numa proporção de mais de dois para um.
Presidentes e vice-presidentes de organismos de normalização controlam as pautas, decidem como o tempo é distribuído e influenciam quais propostas recebem atenção séria e quais morrem por descaso procedimental. Quem preside um grupo de trabalho pode arrastar as propostas de que não gosta e acelerar as que apoia. Os padrões nascem sobretudo do trabalho institucional que acontece antes de qualquer votação.
Em setembro de 2019, a Huawei, a China Mobile, a China Unicom e o Ministério da Indústria e Tecnologia da Informação da China apresentaram ao Grupo Consultivo de Normalização das Telecomunicações do UIT-T uma proposta: o “New IP”, uma reformulação completa dos protocolos fundamentais da internet. Em outubro de 2020, o escritório técnico da ICANN advertiu que a forte vinculação dos endereços aos usuários prevista na proposta poderia facilitar muito a vigilância generalizada e que ela transformaria a internet numa colcha de retalhos de redes separadas, ligadas por gateways. A Internet Society se opôs à própria ideia de um “projeto de cima para baixo para a rede do futuro” elaborado dentro de um organismo intergovernamental. A UIT não levou o New IP adiante: em dezembro de 2020, as plenárias das Comissões de Estudo 13 e 11 do UIT-T se recusaram a aceitá-lo como novo trabalho e adiaram a discussão para a Assembleia Mundial de Normalização das Telecomunicações de março de 2022.
Pequim reagiu reformulando a proposta. Elementos do New IP continuaram ressurgindo como propostas novas em outras comissões de estudo do UIT-T ao longo de 2021. Enquanto isso, a Huawei levou uma frente paralela, o “IPv6 Enhanced” (IPv6+), a outros fóruns: em janeiro de 2021, o Instituto Europeu de Normas de Telecomunicações lançou um grupo setorial sobre IPv6 Enhanced Innovation, com um engenheiro da Huawei entre seus vice-presidentes.
Em outubro de 2021, o Comitê Central do PCC e o Conselho de Estado publicaram as Diretrizes Nacionais para o Desenvolvimento da Normalização, que fixam metas para 2025 e 2035 e vinculam a definição de padrões a uma longa lista de setores tecnológicos estratégicos. O documento orienta empresas, associações setoriais e institutos de pesquisa chineses a participar ativamente das organizações internacionais de normalização, incentiva a China a ajudar a redigir normas internacionais, busca tornar compatíveis as normas chinesas e as internacionais e chega a estimular organizações internacionais de normalização a se estabelecerem na China. Transforma uma década de rápido crescimento da participação chinesa em política de Estado explícita.
Os padrões que vão reger a rede de 2035 estão sendo desenhados em comitês que se reúnem agora. O que for padronizado será embutido nos roteadores, nas estações rádio base e em outros equipamentos de rede fabricados segundo essas especificações e, depois que esses equipamentos são instalados, mudar o que eles conseguem fazer é lento e caro.
Quanto custam duas internets
O FMI estimou em 2023 que uma fragmentação geoeconômica severa poderia reduzir a produção mundial em até 7%, trilhões de dólares por ano, com perdas de 8% a 12% em alguns países quando se acrescenta o desacoplamento tecnológico. Esses números abrangem a fragmentação em sentido amplo, incluindo restrições comerciais, rupturas nas cadeias de suprimentos e barreiras ao investimento; descrevem, portanto, a escala de uma ruptura mais ampla, e não o custo de uma internet dividida em si.
Os custos operacionais já estão correndo. No início de 2023, os cinco cabos submarinos internacionais do Vietnã sofreram danos parciais ou totais ao mesmo tempo, o que cortou 75% do fluxo internacional de dados do país durante o Ano-Novo Lunar. Os provedores compensaram em parte comprando banda extra por cabos terrestres que passam pela China. Três desses cinco cabos voltaram a falhar em 2024. Os reparos podem levar semanas ou meses (o Vietnã esperou de três a nove meses em 2023), e as falhas se repetem. As panes expuseram quão pouca redundância o Vietnã tinha, e sua alternativa passava pela China, enquanto Washington pressionava Hanói a manter a HMN Technologies fora de seus novos cabos.
A localização de dados manda a própria conta. A Mastercard reservou cerca de US$ 350 milhões para um centro local de processamento de pagamentos na Índia, para cumprir a regra de 2018 do Reserve Bank of India que exige que os dados dos sistemas de pagamento sejam armazenados no país, com exceções restritas para transações internacionais. Em 2021, o RBI ainda a proibiu de cadastrar novos clientes de cartão no mercado doméstico por não cumprir a exigência.
Os custos mais altos não recaem nem sobre os Estados Unidos nem sobre a China, que têm população, tamanho de mercado e capacidade técnica para sustentar ecossistemas de internet separados. Os países entre os blocos não têm. O Vietnã enfrenta ao mesmo tempo uma infraestrutura de cabos ligada à China e a pressão americana sobre o roteamento. A Indonésia é um polo de data centers em rápido crescimento e uma encruzilhada de cabos cortejada pelos dois lados. Países africanos que construíram boa parte de sua conectividade com equipamentos da Huawei e redes financiadas pela China estão agora sob pressão ocidental para manter os fornecedores chineses fora de sua próxima geração de infraestrutura.
Um país que construiu sua rede 5G com a Huawei, roteia seu tráfego internacional por cabos da HMN e armazena dados em nuvem na infraestrutura da Alibaba assumiu um compromisso de política externa, quer tenha tido essa intenção, quer não, e esse compromisso está embutido em equipamentos caros de substituir.
O cabo assentado
A fratura da internet global atravessa decisões que a maioria das pessoas nunca vê: licitações de cabos no fundo do mar, votações para a presidência de comitês técnicos, leis que obrigam os dados a ficar dentro das fronteiras nacionais, testes de um mês de uma internet russa soberana. Cada uma delas pode passar por rotina administrativa. Juntas, tornam mais fácil separar segundo linhas políticas uma rede que ainda funciona como uma só.
O contrato do SEA-ME-WE 6 ficou com a SubCom, em vez da HMN Technologies. A rota é a mesma, de Marselha a Singapura através do oceano Índico, com pontos de chegada nos mesmos países. Seus cabos chegaram à costa ao longo de 2024 e 2025, e a entrada em serviço, inicialmente prevista para 2025, foi adiada para 2027. Quando o sistema for ligado, os dados fluirão como planejado, mas por um cabo cuja construção, propriedade e rota seguem acordos diferentes.
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Mídia
Principais fontes e referências
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MediaNama. “RBI bars Mastercard from adding new customers in India; flags non-compliance with data localisation guidelines.” July 14, 2021. https://www.medianama.com/2021/07/223-rbi-bars-mastercard-non-compliance-data-localisation/











