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Em 1º de março de 2010, Hiroshi Mikitani anunciou aos funcionários da Rakuten, por videoconferência numa reunião geral da empresa, que a companhia passaria a funcionar em inglês, e não apenas nas comunicações internacionais ou na correspondência com parceiros estrangeiros. Reuniões internas, avisos no refeitório, cardápios da cantina e e-mails para o colega sentado a três mesas de distância: tudo seria em inglês.
Os funcionários tinham dois anos para atingir as metas de TOEIC que lhes cabiam, fixadas entre 600 e 800 pontos, e quem ficasse aquém corria o risco de ser rebaixado.
Eram profissionais levando uma vida de trabalho comum no próprio país, na própria cidade, numa empresa construída por e para o mercado japonês, e nenhuma estrutura acionária anglo-americana impunha a exigência de cima; foi Mikitani quem a escolheu. Em outubro de 2010, a pontuação média de TOEIC entre os funcionários da Rakuten era 526. Reduzir essa diferença significava mudar a forma como as pessoas falavam e escreviam umas às outras em todos os dias úteis. Em maio de 2015, a média já tinha passado de 800.
Por que uma empresa japonesa iria querer fazer negócios em inglês tem resposta óbvia. O que pede explicação é a força de atração que faz parecer mais barato retreinar milhares de profissionais numa segunda língua do que operar fora da rede do inglês: de onde veio essa força e por que, depois que o império que a construiu se desfez, a conta ainda dava em Tóquio, em 2010, o mesmo resultado que dava em Calcutá, em 1840.
A armadilha do mérito
A explicação mais persistente para o domínio global do inglês é também a menos defensável: a de que o inglês venceu porque mereceu. O argumento assume várias formas: o inglês seria excepcionalmente preciso e expressivo, acolheria com facilidade vocabulário novo, sua gramática enxuta o tornaria acessível. As evidências não sustentam nenhuma dessas afirmações.
Ludwig Lazarus Zamenhof publicou o esperanto em Varsóvia em 1887, e por todos os critérios que ele mesmo estabeleceu (regularidade, facilidade de aprendizado, coerência fonética, economia gramatical) o esperanto supera o inglês. Não tem verbos irregulares, sua ortografia é perfeitamente fonética e sua gramática é compacta e regular. Depois de mais de 135 anos de militância ativa, as estimativas de falantes vão de cerca de 100 mil a dois milhões, e o número dos que o falam com fluência fica perto do piso dessa faixa. Zamenhof achava que agentes racionais adotariam a tecnologia de comunicação mais eficiente.
O problema do esperanto
Uma língua vale na proporção da rede a que ela dá acesso, e o desenho conta pouco diante disso. Em 1887, a rede do inglês incluía o comércio imperial britânico, os concursos do serviço público indiano e os contratos industriais americanos. A rede do esperanto era, e continuou sendo, apenas a dos outros falantes de esperanto.
O latim já havia mostrado a mesma coisa muito antes. Dominou a vida intelectual europeia por cerca de quinze séculos, embora não fosse uma língua especialmente clara. A infraestrutura institucional que importava se organizava em latim: a Igreja funcionava em latim, e as universidades também. Quando essas instituições mudaram, a língua mudou com elas. A Reforma Protestante levou as Escrituras para as línguas vernáculas, a imprensa tornou economicamente viáveis os textos em línguas nacionais e as nascentes academias científicas nacionais publicavam nas línguas de quem as financiava.
Antes da Primeira Guerra Mundial, o alemão liderava as ciências naturais. Em física, química e farmacologia, muitas das revistas que importavam publicavam em alemão, e um cientista que não lia alemão não conseguia acompanhar sua área. A Primeira Guerra Mundial quebrou esse domínio. A partir de 1919, o recém-criado Conselho Internacional de Pesquisa excluiu cientistas alemães e austríacos das uniões científicas internacionais que fundou. A exclusão os punia pela guerra e pelo manifesto de 1914 em que professores alemães a defenderam, e os novos organismos trabalhavam apenas em francês e inglês. O boicote foi suspenso em 1926, mas o alemão nunca recuperou a antiga posição. Os novos organismos internacionais tomaram forma enquanto os cientistas de língua alemã estavam trancados do lado de fora, e quando a ciência se reorganizou outra vez depois de 1945, foi em torno do inglês.
A política linguística da Companhia das Índias Orientais
Na Índia britânica, o mecanismo aparece em contratos concretos e em alocações de recursos concretas. No início do século XIX, a lógica operacional da Companhia das Índias Orientais era comercial.
A Companhia havia reorganizado grandes porções da vida econômica indiana em torno de contratos e tribunais que ela controlava. Para participar desse comércio como mercador, escrevente, advogado ou intermediário, era cada vez mais preciso saber inglês. O que empurrava as pessoas para a língua era a infraestrutura jurídica que decidia se um contrato podia ser executado, e essa infraestrutura estava sendo reconstruída em torno do inglês. A Companhia herdara o persa como língua dos tribunais; depois que a Lei XXIX de 1837 permitiu ao governo abandonar o persa, as línguas locais assumiram os tribunais inferiores e o inglês foi subindo, passo a passo, até o topo do sistema. Um mercador que não entendia a língua do tribunal que julgaria suas disputas dependia de intérpretes e advogados para defender os próprios contratos.
A Minuta de Macaulay, de 2 de fevereiro de 1835, tornou essa lógica explícita e a ampliou. Macaulay propôs desviar o orçamento educacional da Companhia das Índias Orientais das instituições de árabe e sânscrito para o ensino em inglês. Seu desprezo pelo saber sânscrito e árabe era total e declarado — ele afirmou que “uma única estante de uma boa biblioteca europeia valia toda a literatura nativa da Índia e da Arábia”. Mas a parte mais afiada de seu argumento era um sinal de mercado: a Companhia precisava pagar bolsas a seus estudantes de sânscrito e árabe, enquanto os indianos estavam dispostos a pagar para aprender inglês. Ele propôs suspender a impressão de livros em árabe e sânscrito, fechar a Madraça e o Colégio Sânscrito de Calcutá, manter os colégios de Benares e Déli, mas sem bolsas para novos alunos, e redirecionar os recursos liberados para o ensino em inglês. A resolução do governador-geral William Bentinck, de 7 de março de 1835, não chegou aos fechamentos: os colégios de saber nativo continuariam abertos enquanto ainda houvesse alunos. Mas os novos estudantes não receberiam bolsas, os gastos com a impressão de obras orientais foram cortados e o dinheiro passou a financiar o ensino de literatura e ciência inglesas.
As consequências não se dissolveram com o Raj britânico. Um pai ou uma mãe em Mumbai que, em 2026, paga mais caro por uma escola em inglês do que por uma escola em marati está respondendo a um mercado de trabalho que ainda valoriza mais o ensino em inglês. O incentivo que Macaulay defendeu continua operando 190 anos depois, muito tempo após o fim da administração que o criou.
O mesmo enraizamento se repetiu nas cidades portuárias do comércio imperial britânico. Em Calcutá, Bombaim, Madras, Singapura e Hong Kong, contratos, tribunais e normas contábeis em língua inglesa tornaram-se as condições de funcionamento do comércio. Em Lagos, Nairóbi e Acra, o common law inglês e os códigos comerciais ingleses tornaram-se a infraestrutura jurídica da economia extrativista. Depois que o acesso econômico passou tempo suficiente pelo inglês, a língua deixou de precisar de um império por trás, porque cada participante do sistema já tinha embutido o idioma no preço do próprio capital humano.
O persa e o precedente mogol
O persa foi a língua franca administrativa do Império Mogol pela mesma razão estrutural que fez do inglês a língua administrativa britânica: era a língua dos tribunais, dos contratos e da burocracia que organizava a vida econômica e política. Quando a Companhia das Índias Orientais substituiu a administração mogol, a base institucional do persa ruiu em poucas décadas, apesar de séculos de tradição literária e burocrática. O precedente mostra que o inglês não tinha nenhuma imunidade cultural especial. O inglês venceu na Índia pela mesma razão que o persa vencera sob os mogóis — e o destino do persa mostra o que acontece com uma língua quando desaparecem as instituições que a exigem.
1944 e a língua da nova infraestrutura mundial
O Império Britânico se desfez ao longo das décadas do pós-guerra, mas as estruturas de incentivo que ele construíra sobreviveram. Essa continuidade, sozinha, não explica tudo o que o inglês se tornou na segunda metade do século XX, e o resto da explicação começa em 1944.
Antes da Segunda Guerra Mundial, a ciência internacional era multilíngue. O alemão ainda tinha prestígio em química e física. O francês pesava na matemática. Cientistas que trabalhavam no nível mais alto precisavam de várias línguas, e as revistas que importavam se espalhavam entre elas.
Depois de 1945, a capacidade científica americana passou por uma expansão sem precedentes. A National Science Foundation foi criada em 1950, e o complexo de pesquisa da Guerra Fria despejou dinheiro federal nas universidades americanas numa escala sem equivalente no mundo. As instituições americanas tornaram-se o destino profissional dos pós-graduandos mais capazes do planeta, e as revistas americanas tornaram-se os espaços de publicação que decidiam se uma carreira científica avançava. Os cientistas publicavam em inglês porque o inglês era a língua das revistas com as redes de citação que faziam carreiras. Como na Índia da Companhia, as carreiras passavam pela língua, e a língua ganhou um valor que não havia conquistado por mérito próprio.
Duas decisões institucionais de 1944 fixaram o padrão. Em julho, quarenta e quatro nações aliadas se reuniram em Bretton Woods, New Hampshire, e produziram os acordos que criaram o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial.
Ambas funcionaram em inglês desde o início, e por décadas um governo que buscasse crédito internacional lidava com elas, na língua delas. À medida que o dólar se tornava a moeda de reserva mundial, a língua das instituições construídas em torno dele tornou-se a língua de trabalho das finanças internacionais.
Em dezembro, cinquenta e dois Estados assinaram a Convenção de Chicago, que criou a Organização da Aviação Civil Internacional. A infraestrutura aeronáutica americana e britânica dominava o mundo do pós-guerra, e o inglês era a língua de trabalho dominante da convenção. Uma recomendação da OACI de 1951 formalizou o inglês para a radiotelefonia aeronáutica internacional, e requisitos obrigatórios de proficiência, adotados em 2003, entraram em vigor em março de 2008. A aviação escolheu o inglês porque a instituição que definia as normas foi, desde a fundação, um espaço onde as potências anglófonas tinham a influência principal.
Nos anos 1980, o inglês era ao mesmo tempo a língua da ciência global, da aviação, das finanças internacionais e o padrão jurídico-comercial dominante nos antigos territórios britânicos. Ninguém escolheu isso de forma coordenada. Cada sistema embutiu, por conta própria, a mesma língua no momento da fundação, e cada um desses enraizamentos elevou o custo de não falar inglês para todos os que operavam naquele sistema.
O cálculo de Grin
François Grin, economista da Universidade de Genebra, estimou em 2005 que o Reino Unido ganha pelo menos 10 bilhões de euros por ano, em termos líquidos, com o domínio do inglês. O ganho vem de mercados privilegiados para o ensino e a edição em língua inglesa, da economia com tradução e comunicação e do ensino de línguas estrangeiras que o país não precisa financiar. Somando os efeitos multiplicadores e o retorno do dinheiro economizado, Grin chegou a um total de 17 a 18 bilhões de euros por ano, cerca de 1% do PIB britânico. O domínio do inglês equivale a uma transferência contínua dos países que não falam inglês para os anglófonos. O esforço de todos os que precisam adquirir a língua aumenta o valor detido por quem já é dono dela.
O ciclo que se autoalimenta
É a lógica da coordenação que mantém o inglês no lugar. O valor de falar uma língua é proporcional ao número de pessoas que você consegue alcançar e que também a falam. Cada novo falante aumenta o valor para todos os que já a falam. E a coordenação linguística é total: não dá para conduzir duas conversas ao mesmo tempo como se rodam duas plataformas de software numa mesma máquina. Assim, quando uma língua atinge massa crítica num domínio, o custo de não falá-la supera o custo de aprendê-la para todo agente racional desse domínio. O equilíbrio se autoalimenta: quanto maior a rede, mais alto o custo de ficar de fora, o que leva mais gente a entrar, o que torna a rede maior.
Onde o inglês ainda distingue as pessoas, ele compensa. Entre os homens indianos, em 2005, o inglês fluente vinha acompanhado de um salário por hora cerca de 34% maior, e falar um pouco de inglês, de um salário 13% maior. O retorno do inglês fluente era tão grande quanto o de concluir o ensino médio.
Na Polônia do início dos anos 2010, onde o inglês já era comum, o domínio avançado da língua vinha com um prêmio salarial de cerca de 11%, contra 32% para o espanhol e 22% para o francês. A explicação mais provável é a escassez: quanto mais trabalhadores sabem inglês, menos a língua distingue qualquer um deles. A partir de certo grau de difusão, o inglês deixa de ser diferencial e se aproxima do básico: não tê-lo fecha o acesso ao maior conjunto total de oportunidades do mundo, enquanto tê-lo rende uma vantagem menor do que renderia uma língua mais escassa.
O mecanismo da “língua de último recurso” reforça isso. Quando um empresário coreano se encontra com um parceiro brasileiro, os dois fecham o negócio em inglês. Nenhum deles se sente à vontade na língua nem a escolheu deliberadamente, e nenhum país anglófono está envolvido. O inglês acumula valor com essa interação bilateral, como acumula com bilhões de outras parecidas.
A decisão da Rakuten em 2010 não foi isolada. A Sodexo, na França, o Nordea, na Finlândia, e a Cemex, no México, designaram o inglês como língua de trabalho interna. Adotaram o inglês porque ele reduz os custos de coordenação entre equipes espalhadas por vários países. A língua funciona como um padrão técnico comum, valioso sobretudo porque os sistemas de todo mundo já a falam.
Outros padrões dominantes já foram desbancados. O inglês resiste porque os custos de troca linguística são de natureza inteiramente diferente dos custos de troca tecnológica.
Quando uma plataforma de software é desbancada, os custos de troca são concentrados. O usuário migra os dados e aprende uma nova interface. Os custos são reais, mas ficam em decisões individuais que podem ser tomadas uma após a outra. Os custos de troca linguística se distribuem pela infraestrutura educacional de países inteiros (formação de professores, currículos, livros didáticos, sistemas de exames), pelos sistemas de credenciamento profissional de todas as ocupações de prestígio e pelo capital de carreira acumulado de centenas de milhões de profissionais. São sistemas institucionais independentes, com governanças independentes. Desbancar o inglês de forma ampla exigiria mover muitos deles num curto intervalo, e qualquer sistema que se mova sozinho paga o custo de deixar os outros para trás. Uma deserção coordenada entre sistemas independentes raramente acontece só por pressão econômica; ela exige uma ruptura estrutural.
Em outubro de 2026, o inglês era a língua do conteúdo de 49,5% dos sites cujo idioma o W3Techs consegue identificar, e o espanhol, em segundo lugar, respondia por 6%. A participação do inglês caiu desde o pico de 2022, mas quase não se mexeu desde o início de 2025.
O teto do mandarim
À primeira vista, o argumento econômico a favor do mandarim é real. A China é a maior economia do mundo em paridade de poder de compra, posição que ocupa desde 2016 pelas medições do FMI.
Em 2023, a China era o maior parceiro comercial bilateral de 60 economias, quase o dobro dos Estados Unidos. A Iniciativa Cinturão e Rota estendeu relações financeiras chinesas pela Ásia Central, pela África e por partes da Europa numa escala que lembra, na superfície, o enraizamento comercial do Império Britânico.
A analogia não resiste à cronologia. O inglês foi embutido quando a infraestrutura de comunicação global estava sendo construída. Códigos jurídico-comerciais, sistemas de revistas científicas, normas de aviação e instituições financeiras internacionais eram todos novos e institucionalmente maleáveis quando o inglês foi inscrito neles.
O mandarim está entrando num sistema que já tem de setenta a oitenta anos de infraestrutura em língua inglesa. Um protocolo embutido em sistemas independentes não pode ser substituído como se substitui um produto num mercado competitivo, oferecendo aos usuários uma alternativa melhor. Muitos desses sistemas teriam de se mover mais ou menos ao mesmo tempo.
A publicação científica mostra como isso é difícil. Em 2016, a China ultrapassou os Estados Unidos e se tornou o maior produtor mundial de artigos científicos em volume. Ainda assim, a publicação científica em chinês não se tornou um padrão global. Os cientistas chineses publicam seus trabalhos de maior impacto em revistas de língua inglesa, porque são elas que carregam as redes de citação que determinam o destino das carreiras.
As matrículas em cursos de chinês nas faculdades americanas chegaram ao pico em 2013 e caíram nos dois levantamentos seguintes da MLA: queda de 12,5% entre 2013 e 2016 e de mais 14,3% entre 2016 e 2021. No mesmo período, as matrículas em coreano cresceram cerca de 57%, justamente na década em que mais se discutia a ascensão econômica da China. Números de matrículas não mostram o que cada estudante pesou, e o coreano atraiu tanto pelo apelo cultural quanto por planos de carreira. Ainda assim, para os estudantes americanos como grupo, a escala econômica da China não fez o mandarim parecer valer o custo de aprendê-lo.
O custo de aquisição é real, mas secundário. O mandarim está na Categoria IV, o grupo mais difícil da escala do Foreign Service Institute dos Estados Unidos, e exige cerca de 88 semanas de treinamento para chegar à proficiência profissional de trabalho, contra 30 semanas para o francês ou o espanhol. Mas um estudante em Nairóbi que escolhe entre o inglês e o mandarim está escolhendo entre a rede que existe e a rede que existiria se outras pessoas suficientes fizessem a mesma escolha antes, e esse problema de coordenação é a barreira maior.
Uma deserção coordenada teria de passar por cada um desses sistemas. A OACI teria de alterar as normas de comunicação da aviação, uma negociação entre seus 193 Estados-membros atuais. O ecossistema de revistas científicas teria de reorganizar as redes de citação em torno da publicação em chinês. O FMI e o Banco Mundial teriam de mudar de língua de trabalho. Multinacionais de dezenas de setores teriam de reescrever suas políticas linguísticas internas. Nenhum fato econômico isolado, nem mesmo a China ultrapassando os Estados Unidos em PIB nominal, desencadearia tudo isso de uma vez.
O próprio deslocamento do latim levou três séculos e exigiu mudanças estruturais vindas de várias direções independentes: a Reforma Protestante, a imprensa em língua vernácula, a ascensão das academias científicas nacionais e o colapso da autoridade institucional papal em toda a Europa. Nenhum acontecimento isolado o causou. O equilíbrio de coordenação ruiu porque vários sistemas institucionais independentes mudaram dentro de uma janela estreita o bastante.
O poder econômico importa, como pressupõe o argumento a favor do mandarim. O que esse argumento subestima é quanto poder é necessário e que outras condições precisam ser cumpridas ao mesmo tempo.
Cinturão e Rota e Institutos Confúcio: o mecanismo de enraizamento se repete?
O enraizamento comercial britânico funcionou por meio da infraestrutura jurídica: os contratos eram em inglês, os tribunais que os faziam cumprir passaram a funcionar em inglês e participar exigia a língua. A Cinturão e Rota repete isso? Credores e empreiteiras chineses construíram estradas, portos e usinas de energia nos países da iniciativa, mas o encanamento jurídico não passou para o mandarim. Num conjunto de 100 contratos de empréstimo chineses, os do China Eximbank geralmente escolhiam a lei chinesa e arbitragem na China, mas sete de oito contratos do China Development Bank usavam a lei inglesa. A rede de Institutos Confúcio nos Estados Unidos, que tinha cerca de 100 unidades em 2019, encolheu drasticamente: em 2023, menos de cinco institutos continuavam abertos. Onde a rede se expandiu, construiu infraestrutura de ensino de mandarim. Sob a Companhia das Índias Orientais, porém, nunca foram as escolas que impulsionaram a adoção do inglês: Macaulay observou que os indianos pagavam para aprender inglês, enquanto a Companhia tinha de pagar bolsas a seus estudantes de sânscrito e árabe. Ainda não há sinal de que a Cinturão e Rota tenha embutido o mandarim no direito contratual, nos órgãos de normas técnicas ou na infraestrutura de publicação científica dos países beneficiários, e por isso o padrão britânico não está se repetindo.
A estrutura que não escolhemos
O British Council estima há muito tempo que mais de 1,75 bilhão de pessoas falam inglês num nível útil, cerca de uma em cada cinco pessoas do planeta hoje. Para todas as que não cresceram com a língua, isso significou anos de esforço cognitivo, gastos com educação e custo de oportunidade para ter acesso a uma rede que não construíram e da qual não podem sair sem consequências profissionais.
Em termos econômicos, trata-se de uma transferência. A estimativa de Grin, de 2005, situava o ganho líquido do Reino Unido com o domínio do inglês em no mínimo 10 bilhões de euros por ano. No início da carreira, cientistas de países com baixa proficiência em inglês gastam cerca de 91% mais tempo para ler um artigo em inglês do que falantes nativos, e os de países com proficiência moderada, cerca de 51% mais tempo para escrever um. O custo se mede em euros no plano das políticas públicas e em semanas de trabalho na mesa de cada um.
Hiroshi Mikitani fez essa conta para uma empresa em março de 2010. O pai ou a mãe em Mumbai que paga uma escola em inglês a faz para um filho, e cada vez que o resultado favorece o inglês, a rede que inclinou a resposta fica um pouco maior.
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Mídia
Principais fontes e referências
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