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No último dia de maio de 2026, soldados israelenses hastearam sua bandeira sobre o castelo de Beaufort, uma fortaleza cruzada do século XII no alto de um penhasco sobre o rio Litani, no sul do Líbano.
A Brigada Golani já havia tomado de assalto a mesma fortaleza, então um reduto da OLP, no primeiro dia da invasão israelense do Líbano em 1982. Israel manteve Beaufort pelos dezoito anos seguintes e, a partir de 1985, o castelo foi um posto avançado da zona de segurança, uma faixa ocupada do sul do Líbano concebida para deixar Kiryat Shmona, Nahariya e as cidades da Galileia fora do alcance dos foguetes. No papel, a estratégia era coerente: impor distância física entre a ameaça e a população que ela tinha como alvo. Na prática, a zona virou campo de treinamento para a organização que deveria reprimir. Em maio de 2000, depois de quinze anos de baixas crescentes e apoio público minguante, Ehud Barak retirou as FDI, num movimento que a liderança israelense apresentou como uma decisão estratégica ousada e que seus críticos chamaram de fuga. O Exército do Sul do Líbano, a milícia que servia de procuradora a Israel e sua única parceira de governo na faixa ocupada, desmoronou em setenta e duas horas. Comandantes e suas famílias fugiram para o sul, rumo a Israel, e os combatentes abandonaram suas posições. O Hezbollah entrou no território desocupado, em muitas áreas sem disparar um tiro, e Hassan Nasrallah declarou que a evacuação da zona provava que a resistência armada funciona contra as FDI. Essa afirmação se tornou a marca política definidora do Hezbollah pelos vinte e seis anos seguintes.
Agora as FDI estão de volta. A guerra recomeçou em março de 2026, quando o Hezbollah disparou foguetes contra o norte de Israel dois dias depois de os Estados Unidos e Israel atacarem o Irã. No fim de maio, as forças israelenses já tinham cruzado o Litani, declarado zona de combate a área até o rio Zahrani e retomado o castelo que a própria história institucional das FDI trata como um monumento ao fracasso. Foi a incursão israelense mais profunda no Líbano em mais de um quarto de século. Um acordo-quadro mediado pelos EUA e fechado no fim de junho promete uma retirada israelense em etapas, começando por pequenas “zonas-piloto” entregues ao Exército libanês. Em outubro de 2026, porém, Israel ainda mantém uma faixa de até cerca de dez quilômetros de profundidade e diz que suas tropas ficarão até que o Hezbollah seja desarmado. O objetivo declarado não mudou: proteger as comunidades do norte de Israel de ataques transfronteiriços. O adversário também não mudou, embora seja hoje muito mais capaz, depois de um quarto de século moldado pela lição que a retirada de 2000 ensinou à região.
Que tipo de dispositivo estratégico leva o mesmo exército ao mesmo território, pelo mesmo objetivo declarado, quando a instituição que dá o passo sabe quanto custou a primeira tentativa e o que ela rendeu?
O arquétipo
A zona de segurança, tal como concebida em 1985, não era irracional. Depois de uma retirada em etapas de posições mais profundas no Líbano no primeiro semestre de 1985, Israel manteve uma zona de segurança autodeclarada ao longo de sua fronteira norte, controlada em conjunto pelas FDI e pelo Exército do Sul do Líbano. Ela chegava a cerca de quinze quilômetros de profundidade e cobria aproximadamente um décimo do Líbano. O objetivo era pôr distância física entre o Hezbollah e as comunidades israelenses ao alcance dos foguetes.
Em 1985 o Hezbollah era incipiente: tinha sido criado três anos antes, em resposta direta à invasão de 1982, com apoio iraniano, mas alcance operacional limitado.
Durante quinze anos, os combatentes do Hezbollah aprenderam a enfrentar as FDI num terreno que conheciam, desenvolveram táticas de desgaste calibradas para a sensibilidade israelense às baixas e construíram a estrutura organizacional e a mitologia política que definiriam o movimento por décadas. As táticas eram específicas: bombas à beira da estrada contra patrulhas das FDI e comboios do ELS, ataques de morteiro contra postos avançados, emboscadas sincronizadas com o ciclo de notícias. O Hezbollah entendeu que não precisava vencer militarmente, apenas tornar visível o custo da zona, semana após semana, para um público israelense capaz de comparar esse custo com o benefício e concluir que o benefício não bastava.
Cerca de 250 soldados israelenses morreram na zona entre 1985 e 2000. O próprio porta-voz do ELS calculou suas perdas em 621 combatentes até março de 2000. Distribuídas ao longo de quinze anos, não eram perdas militares ruinosas, mas, para uma democracia travando uma guerra que cada vez menos cidadãos conseguiam justificar, foram politicamente ruinosas. As baixas vinham num gotejar constante de emboscadas e atentados, um nome no jornal a cada poucas semanas, e não em grandes batalhas. O Hezbollah tinha encontrado o ritmo que maximizava o dano político e minimizava o tipo de violência espetacular que poderia ter unido a opinião pública israelense a favor da ocupação, e não contra ela.
Esse foi o primeiro componente do mecanismo. O perímetro da zona, uma frente ativa que atravessava o sul do Líbano de ponta a ponta, tornou-se uma nova fronteira. Ele conteve em grande parte as infiltrações em Israel, mas era estreito demais para deixar os foguetes fora de alcance, e os combatentes ainda podiam atravessá-lo para dentro da zona e receber suprimentos e se organizar atrás dele. Cada ataque do Hezbollah através do perímetro era prova de que a zona não funcionava, enquanto cada contra-ataque israelense aprofundava o envolvimento sem eliminar a origem do problema. As FDI não tinham como destruir o Hezbollah de dentro da zona sem se expandir até onde o Hezbollah operava, e a expansão produziria uma versão maior do mesmo problema. Chamemos isso de replicação da fronteira: o traço definidor da zona-tampão, seu limite, reproduz o problema que a zona foi construída para resolver.
O segundo problema era que a zona também precisava ser governada. O ELS policiava os civis libaneses da zona com detenções arbitrárias, punições coletivas e recrutamento forçado, inclusive de crianças, e essas condições geravam ressentimento entre pessoas que não tinham nenhuma lealdade prévia ao Hezbollah. A conduta do ELS no centro de detenção de Khiam deu ao Hezbollah um argumento de recrutamento que não exigia nenhuma invenção: os presos políticos ali eram submetidos a tortura, incluindo choques elétricos, suspensão em postes e espancamentos sistemáticos. O Comitê Internacional da Cruz Vermelha foi mantido fora da prisão até 1995, uma década depois da abertura de Khiam. A cada ano de funcionamento da zona, crescia a população local de potenciais simpatizantes do Hezbollah, e o dispositivo projetado para conter a ameaça a estava fabricando.
O Exército do Sul do Líbano
O ELS tinha entre 2.500 e 3.000 combatentes, aproximadamente. A maioria de seus comandantes era cristã, mas só cerca de metade dos membros era; os demais eram muçulmanos xiitas, drusos e sunitas. Não tinha legitimidade popular fora de suas próprias fileiras nem capacidade logística independente: Israel o criou, pagava seus salários e o equipava, a um custo estimado de US$ 35 milhões por ano. A Anistia Internacional constatou que autoridades israelenses participaram diretamente de interrogatórios em Khiam pelo menos até 1988. Quando as FDI começaram a entregar seus postos avançados ao ELS, em meados de maio de 2000, a milícia se esfacelou em poucos dias. Comandantes cruzaram para Israel com suas famílias e os combatentes voltaram para casa; cerca de 1.500 membros do ELS e seus dependentes, umas 7.000 pessoas ao todo, fugiram para Israel. Depois de quinze anos como espinha dorsal da arquitetura de segurança de Israel no sul do Líbano, a organização se revelou sem nenhuma solidez estrutural independente da potência que a criara.
O terceiro problema era diplomático. A Resolução 425 do Conselho de Segurança da ONU havia pedido a retirada israelense do Líbano em 1978, sete anos antes mesmo da criação da zona de segurança. A cada ano que Israel permanecia, aumentava a distância entre o que um acordo negociado teria exigido e o que Israel podia politicamente ceder. O Líbano e a comunidade internacional em geral não tinham como abrir mão da exigência de cumprimento da 425; a presença de Israel era a questão, e quanto mais ela se prolongava, mais inegociável a exigência se tornava. Do lado israelense, uma retirada sem garantias de segurança parecia, ano após ano, cada vez mais uma capitulação, e essas garantias ficavam mais difíceis de construir à medida que o Hezbollah se fortalecia a cada ano de ocupação. O líder político israelense que propusesse a retirada teria de responder a uma pergunta que ficava mais difícil a cada funeral: para que esses soldados morreram, se agora vamos embora? No fim da década de 1990, anos de baixas, entrincheiramento institucional e ressentimento acumulado dos dois lados tinham posto fora de alcance o acordo que talvez fosse possível em 1985.
Em fevereiro de 1997, dois helicópteros de transporte das FDI que levavam soldados a postos avançados dentro da zona de segurança colidiram, matando os setenta e três ocupantes. O desastre precipitou o que vinha se acumulando havia anos. Rachel Ben Dor, Miri Sela, Ronit Nahmias e Zahara Antebi, quatro mulheres do norte de Israel, fundaram o movimento Quatro Mães, que redefiniu a zona: de necessidade defensiva, ela passou a ser vista como um sorvedouro inaceitável de vidas. Barak fez campanha com a promessa de sair do Líbano em um ano, venceu e fixou o prazo para julho de 2000. Quando o ELS desmoronou em maio, ele antecipou a retirada final para 24 de maio, e o Hezbollah declarou vitória.
Em quinze anos, a zona não deteve os ataques com foguetes e construiu a organização que deveria conter. A retirada, quando veio, deixou na fronteira um Hezbollah mais forte do que aquele contra o qual a zona fora construída, porque a zona havia fabricado condições nas quais qualquer retirada, por mais acertada que fosse a decisão, seria lida como derrota.
Escala continental
Se o caso do sul do Líbano mostra o mecanismo em sua forma menor e mais precisa, a zona-tampão soviética no Leste Europeu conduziu o mesmo experimento numa área cerca de mil vezes maior, ao longo de quatro décadas, com o mesmo resultado estrutural.
A justificativa soviética de segurança em 1945 era, se tanto, mais forte que a de Israel em 1985. A Rússia tinha sido invadida pelo oeste duas vezes no espaço de uma geração, pelas Potências Centrais na Primeira Guerra Mundial e pela Alemanha nazista em 1941, através da Polônia, dos países bálticos, da Bielorrússia e da Ucrânia. Algo entre vinte e cinco e vinte e sete milhões de cidadãos soviéticos morreram na Segunda Guerra Mundial. Um cordão de Estados controlados entre a Rússia e o Ocidente foi a conclusão tirada dessa experiência recente e catastrófica.
O cordão produziu um conjunto de Estados clientes economicamente dependentes, que precisavam de apoio soviético contínuo para funcionar. Segundo uma estimativa, a União Soviética subsidiava os seis Estados do Leste Europeu membros do Comecon (Polônia, Hungria, Tchecoslováquia, Alemanha Oriental, Romênia, Bulgária) na casa dos bilhões de dólares, vendendo-lhes energia e matérias-primas abaixo dos preços mundiais e comprando seus produtos manufaturados acima deles. Outros economistas contestam tanto a metodologia quanto a interpretação dessa estimativa e argumentam que os preços dentro do Comecon refletiam a economia normal do bloco, e não um subsídio deliberado. Seja como for, a zona-tampão impunha custos reais e duradouros: centenas de milhares de soldados soviéticos estacionados pelo Leste Europeu no fim da década de 1980, repetidas intervenções militares que exigiram a mobilização de grupos de exércitos inteiros e um fardo contínuo de gestão política que consumiu recursos diplomáticos e de inteligência soviéticos década após década. Em vez de se tornarem autossustentáveis, a maioria dos Estados-tampão continuou dependente, e cada década de controle soviético aprofundava as distorções econômicas e as fragilidades políticas que mantinham cara a gestão da zona-tampão.
A replicação da fronteira operava em escala continental. A borda ocidental da zona-tampão era uma fronteira com a Otan que exigia presença militar soviética permanente, com de longe o maior contingente na Alemanha Oriental e dezenas de milhares de soldados a mais na Tchecoslováquia, na Hungria e na Polônia. Defender essa fronteira exigia guarnições, as guarnições exigiam infraestrutura, e a infraestrutura exigia controle político para ser mantida.
E a resistência voltava mais ou menos uma vez a cada geração. Alemanha Oriental, 1953: tanques soviéticos nas ruas de Berlim Oriental contra operários em greve. Hungria, 1956: uma intervenção militar soviética em grande escala que matou aproximadamente 2.500 húngaros e levou cerca de 200 mil a fugir para a Áustria e a Iugoslávia. Tchecoslováquia, 1968: a Primavera de Praga esmagada por uma força de invasão do Pacto de Varsóvia, o que produziu a formulação explícita do que viria a ser a Doutrina Brejnev. Polônia, 1980–81: o Solidariedade, com dez milhões de membros, e a lei marcial sob Jaruzelski em vez de uma intervenção soviética direta, que Moscou calculou que sairia cara demais, um cálculo que por si só revelava o quanto o mecanismo havia restringido as opções soviéticas após três décadas de funcionamento.
Cada repressão era a zona-tampão fazendo aquilo para que fora projetada: manter um regime cliente no poder e seu país dentro do bloco. Cada repressão também depositava capital político nos movimentos de oposição que sustentariam a resistência da década seguinte. Os operários esmagados em Berlim Oriental em 1953 se tornaram a memória fundadora de uma dissidência que ressurgiu em todas as crises posteriores. Quando o mecanismo finalmente se rompeu, as populações dos Estados-tampão carregavam quarenta anos de ressentimento acumulado e, na prática, nenhuma lealdade ao sistema que as mantinha no lugar.
A Doutrina Brejnev
Depois da invasão da Tchecoslováquia liderada pelos soviéticos, em agosto de 1968, Brejnev deu ao problema de saída da zona-tampão sua formulação mais crua: Estados socialistas não podiam deixar o bloco socialista, e qualquer tentativa nesse sentido desencadearia uma intervenção. A doutrina nomeou o problema de saída sem resolvê-lo, ao declarar a saída inadmissível porque ela desmancharia tudo o que a zona-tampão fora construída para impedir. Quando Gorbachev se recusou a aplicá-la, em 1989, foi exatamente o que aconteceu: os regimes comunistas caíram em poucos meses, no colapso em cascata que a doutrina tinha sido concebida para evitar. As reduções parciais das tropas soviéticas anunciadas por Gorbachev em dezembro de 1988 já haviam começado na primavera de 1989, mas os acordos para a retirada completa só foram negociados depois da queda dos regimes, país por país; os últimos soldados soviéticos deixaram a Tchecoslováquia em junho de 1991.
Na década de 1980, os Estados-tampão tinham deixado de ser ativos que a União Soviética protegia para se tornar passivos que ela não tinha condições de manter nem de abandonar. A justificativa de segurança original da zona-tampão, impedir uma invasão vinda do Ocidente, fora esvaziada décadas antes pela dissuasão nuclear, mas o mecanismo havia acumulado tantas dependências e compromissos que desmontá-lo era mais difícil do que continuar pagando seus custos. Depois de quatro décadas, esse equilíbrio finalmente se rompeu, e a saída veio como um colapso em vez de um acordo negociado.
O experimento em curso
O sul do Líbano e o Leste Europeu vêm embalados com seus desfechos. A certeza retrospectiva que oferecem, a sensação de que é claro que ia dar errado, é útil, mas enganosa. Ela faz o mecanismo parecer inevitável e com isso encobre o que mais importa: o mecanismo é visível em tempo real, antes que o desfecho chegue.
A Turquia no norte da Síria desde 2016 mostra isso, e o caso agora testa o que acontece quando o terreno político se move sob uma zona-tampão. Ancara construiu sua zona em três operações, cada uma deixando uma nova linha de frente a defender. Então a guerra ao redor mudou: Bashar al-Assad caiu em dezembro de 2024, o PKK anunciou sua dissolução em 2025 e, em agosto de 2026, as FDS, lideradas pelos curdos, tinham sido incorporadas ao novo exército sírio. As tropas turcas continuam lá.
Operação Escudo do Eufrates, de agosto de 2016 a março de 2017: a Turquia e facções sírias aliadas tomaram o bolsão que vai de Jarablus, no Eufrates, a oeste até Azaz e ao sul até al-Bab. Os objetivos declarados eram expulsar o Estado Islâmico da área de fronteira e impedir a formação de um corredor curdo contínuo, e a operação alcançou ambos, localmente. Também produziu uma nova linha de frente a oeste, com o bolsão de Afrin, controlado pelas YPG.
Operação Ramo de Oliveira, de janeiro a março de 2018: a Turquia avançou sobre Afrin, um enclave curdo em sua própria fronteira cujos combatentes das YPG a artilharia turca já havia bombardeado em fevereiro de 2016, quando eles saíram do bolsão em direção a Azaz. Ancara classificou as YPG de Afrin como uma extensão do PKK e limpou o distrito. A operação produziu novas fronteiras com as FDS a leste e ao sul, o deslocamento de populações curdas e yazidis e a instalação de facções do Exército Nacional Sírio apoiadas pela Turquia, cuja conduta, incluindo saques, confisco de propriedades e o reassentamento de famílias árabes de outras partes da Síria em casas curdas, recaiu sobretudo sobre os curdos, mas atingiu também árabes suspeitos de simpatizar com as FDS.
Operação Fonte de Paz, outubro de 2019: a Turquia tomou a faixa entre Tall Abyad e Ras al-Ayn, com o objetivo de criar uma zona-tampão de trinta quilômetros de profundidade. O resultado foi mais um recuo das FDS, mais resistência local e outra fronteira que exigia defesa ativa.
Em seu auge, a zona controlada pela Turquia cobria vários milhares de quilômetros quadrados e cerca de 1,4 milhão de pessoas. Cada operação perseguia objetivos que Ancara já tinha, contra o Estado Islâmico e contra o autogoverno curdo ao longo de sua fronteira, e cada linha que a Turquia traçava estabilizava um lado e transformava o outro numa nova fronteira.
Dentro da zona, facções do Exército Nacional Sírio e a polícia militar praticaram prisões arbitrárias, tortura e desaparecimentos forçados, às vezes na presença de autoridades turcas. Propriedades curdas foram saqueadas e confiscadas, e famílias árabes foram reassentadas em casas cujos donos tinham fugido, uma alteração deliberada da demografia da região. Os curdos sofreram a maior parte dos abusos. A Human Rights Watch responsabilizou a Turquia como potência ocupante. Cada abuso dava às forças lideradas pelos curdos fora da zona mais um motivo para lutar, e a Ancara mais um motivo para ficar.
Durante anos, o fechamento diplomático pareceu completo: a condição de saída declarada pela Turquia, a eliminação da capacidade militar das YPG/PKK no norte da Síria, não podia ser cumprida com a ocupação de território. Então a política em torno da zona mudou. O PKK anunciou sua dissolução em maio de 2025 e começou a destruir suas armas em julho. Em janeiro de 2026, uma ofensiva do governo sírio forçou as FDS a aceitar um acordo de fusão com o exército nacional, e em agosto seu comandante declarou a fusão concluída. A força que justificava a zona deixou, no papel, de existir como exército independente, embora muitos de seus ex-combatentes agora carreguem as armas dentro do exército sírio, em vez de tê-las deposto. Ainda assim, as tropas turcas permanecem, e Ancara diz que ficarão até que as ameaças à sua segurança sejam eliminadas. Se uma zona-tampão pode ser desmontada depois que a força contra a qual foi construída desapareceu formalmente, enquanto o ocupante ainda vê uma ameaça em seus ex-combatentes, é o teste que este caso agora apresenta.
Governança no norte da Síria sob controle turco
O enquadramento “temporário” das operações turcas convivia mal com o que acontecia no terreno. A lira turca substituiu a libra síria; bancos turcos, os correios turcos e empresas turcas de serviços públicos prestavam os serviços; o turco era ensinado como segunda língua nas escolas. Moradores curdos e yazidis foram deslocados, e famílias árabes de Ghouta Oriental, de Idlib e de outros lugares foram instaladas em suas casas. A área continuou tecnicamente território soberano sob administração estrangeira de fato, com os sistemas do ocupante substituindo os locais. A zona-tampão soviética funcionava da mesma maneira: os Estados clientes eram nominalmente independentes, enquanto suas economias, suas forças armadas e seu governo estavam firmemente atrelados a Moscou. Mesmo depois da queda de Assad e de Damasco começar, a partir de dezembro de 2024, a incorporar as facções apoiadas pela Turquia a seu novo Ministério da Defesa, as tropas turcas ficaram e a vida no terreno quase não mudou.
O mecanismo
Os três construtores dificilmente poderiam ser mais diferentes: uma superpotência nuclear da Guerra Fria defendendo um cordão continental por quatro décadas, uma democracia regional mantendo uma milícia procuradora ao longo de uma frente que atravessava o sul do Líbano de ponta a ponta por quinze anos, e um membro da Otan conduzindo operações sucessivas pelo norte fragmentado de um Estado em guerra consigo mesmo. Os casos diferem em época, escala, ideologia, adversário e política interna, e ainda assim o dispositivo seguiu o mesmo curso em cada um, e as duas zonas que já terminaram deixaram seus construtores em situação pior do que antes. A semelhança vem do modo como uma zona-tampão funciona, quem quer que a construa.
O mecanismo tem três partes interligadas, e a primeira é o próprio limite.
O novo perímetro se torna uma linha de frente muito parecida com a fronteira original. Os inimigos não desaparecem porque foram empurrados para trás; eles se reorganizam do outro lado da nova linha. A potência ocupante tem então três respostas possíveis, e cada uma fracassa em seus próprios termos. Pode expandir, construindo uma zona maior, com um perímetro mais longo e a mesma vulnerabilidade a um custo maior, como a Turquia fez três vezes seguidas. Pode se entrincheirar, o que não exige decisão estratégica nenhuma: o entrincheiramento é aquilo em que o “temporário” se transforma por padrão quando nenhuma condição de saída é cumprida, e foi o que a zona do ELS fez durante a maior parte de seus quinze anos. Ou pode se retirar, cedendo diante do problema original em condições agravadas pela própria ocupação, como Israel fez em 2000 e a União Soviética em 1989.
Nos três casos, o entrincheiramento foi o estado de repouso: cada zona se acomodou até que seu construtor decidisse expandi-la ou ir embora.
A segunda parte é a resistência que a zona alimenta, e é aqui que o rótulo de “temporária” cumpre uma função real. Como a zona é oficialmente temporária, o ocupante não chega a governar o território abertamente. A zona cria resistência, mas nunca empenha os recursos que reprimir essa resistência exigiria, porque a repressão total significaria algo diferente de uma zona-tampão: significaria conquista e domínio permanente.
O que a repressão total teria exigido (governar o Líbano como uma província, reestalinizar o Leste Europeu depois de cada levante, eliminar as condições políticas que produziam combatentes curdos) nunca esteve ao alcance de uma potência que mantinha uma “zona-tampão temporária”. Uma democracia dificilmente consegue sustentar a ocupação indefinida de um território hostil sem conceder direitos políticos à população ocupada (o que transforma a política interna do ocupante) ou sem praticar uma repressão num nível que destrói sua própria legitimidade. O enquadramento mantém a resistência perpetuamente sustentável, o que justifica a presença continuada e impede a saída.
A terceira é o fechamento da porta diplomática. Uma vez que a zona-tampão existe, o acordo que estava disponível antes da ocupação, geralmente a opção mais barata, sai do alcance. Do lado ocupante, o setor de segurança trata qualquer concessão territorial como capitulação; o líder político que propõe a retirada enfrenta tanto a oposição política quanto as famílias dos soldados mortos na defesa da zona, que vão perguntar para que seus filhos morreram. Do lado ocupado, os ressentimentos criados pela ocupação se tornam precondições para um acordo, e essas precondições ficam mais pesadas quanto mais tempo a zona funciona, porque cada ano acrescenta novas baixas, novos deslocamentos e novas razões para recusar termos que teriam sido aceitáveis uma década antes. A Resolução 425 ficou sem resposta por vinte e dois anos. A Doutrina Brejnev se manteve por vinte e um. Nos dois casos, a distância entre o que era negociável antes da ocupação e o que era negociável depois dela já tinha ultrapassado o ponto em que poderia ser fechada muito antes de a zona acabar.
Os três componentes formam um ciclo que se autoalimenta. A replicação da fronteira sustenta as condições físicas para a resistência. A resistência se alimenta da própria zona, que cria novos combatentes, ressentimentos e organizações. Essa resistência dá ao ocupante um argumento interno para ficar, porque a potência ocupante sempre pode apontar a ameaça que a zona enfrenta como prova de que a retirada seria prematura. Ficar aprofunda o impasse diplomático, acrescentando anos de ocupação à lista de ressentimentos que qualquer acordo precisa enfrentar. O impasse impede o acordo que permitiria a saída, e o ciclo recomeça.
Quanto mais tempo ele dura, mais cara fica a saída, o que a torna politicamente menos suportável e prolonga ainda mais o ciclo. O ciclo durou quinze anos no sul do Líbano e quarenta e quatro no Leste Europeu. No norte da Síria, já são dez anos, e a contagem continua, mesmo depois que a força contra a qual foi construído se dissolveu no exército sírio.
Romper o ciclo antes que a exaustão force uma retirada unilateral exige três condições cumpridas ao mesmo tempo. A primeira é uma contraparte capaz de oferecer garantias de segurança que substituam a zona na prática. Isso significa um Estado funcional, e não uma organização de resistência: não se pode entregar a zona à força contra a qual se vem lutando e chamar isso de acordo. A segunda é uma base política interna no país ocupante disposta a absorver os custos da saída antes que eles se tornem insuportáveis; alguém precisa aceitar a acusação de ter jogado fora o que os soldados mortos conquistaram, e ganhar uma eleição mesmo assim. A terceira é um arcabouço de acordo que trate dos ressentimentos criados pela ocupação, além da ameaça que a precedeu, porque a população ocupada agora tem uma lista de exigências que não existia antes da zona, e essas exigências não vão desaparecer por serem inconvenientes.
No sul do Líbano, só a segunda chegou a tomar forma, quando a opinião pública passou a apoiar a retirada e Barak venceu as eleições com essa proposta, e Israel saiu unilateralmente, sem acordo e sem transição administrada. No Leste Europeu, Moscou primeiro parou de impor a zona-tampão e só negociou a partida completa de suas tropas depois que os regimes clientes já tinham começado a cair.
Quais variáveis importam
A operação de 2026 é uma repetição. O mesmo exército está de volta a praticamente o mesmo território, com as forças israelenses além do Litani, o castelo de Beaufort retomado e a área até o Zahrani declarada zona de combate. O objetivo declarado é o mesmo: neutralizar a ameaça de ataques transfronteiriços com foguetes. O adversário também, enfraquecido por dois anos de guerra, mas não destruído, e ainda portador de um quarto de século de memória institucional construída sobre a convicção de que o desgaste funciona.
O ELS não existe mais, e não há nenhuma força procuradora equivalente. O Exército libanês, que o analista Joe Macaron considerou “sobrecarregado demais” para conter o avanço israelense no fim de maio, só agora está sendo testado como substituto: em julho de 2026, assumiu a primeira pequena “zona-piloto” desocupada pelas forças israelenses.
O cessar-fogo de novembro de 2024
O cessar-fogo que entrou em vigor no fim de novembro de 2024 foi anunciado pelos Estados Unidos e pela França e aceito por Israel e pelo Líbano. O Líbano se comprometeu a impedir que o Hezbollah e outros grupos armados atacassem Israel e a retirá-los da área ao sul do Litani. Israel deveria se retirar em etapas no prazo de sessenta dias, à medida que o Exército libanês entrasse, chegando a 10 mil soldados no sul. Um mecanismo presidido pelos EUA, sediado pela Unifil e com participação da França, deveria monitorar o cumprimento. Israel perdeu o prazo e, alegando atividade contínua do Hezbollah, manteve cinco posições no alto de colinas dentro do Líbano: Labbouneh, Jabal Blat, Jal al-Deir, perto de Aitaroun, Markaba–Houla e Hamames, perto de Khiam. A Unifil contou mais de 10 mil violações israelenses aéreas e terrestres no primeiro ano da trégua.
O cessar-fogo ruiu em 2 de março de 2026, quando o Hezbollah disparou foguetes contra Israel após os ataques americano-israelenses ao Irã. Uma segunda cessação de hostilidades, mediada pelos EUA, começou em meados de abril e foi prorrogada duas vezes, mas as forças israelenses continuaram avançando até cruzar o Litani no fim de maio. Um acordo-quadro fechado no fim de junho finalmente vinculou a retirada israelense ao deslocamento do Exército libanês e ao desarmamento do Hezbollah, começando por pequenas zonas-piloto. O Hezbollah o rejeita, e Israel diz que suas tropas ficarão até que o grupo seja desarmado. A arquitetura de uma saída política existe no papel. Até agora, avançou uma aldeia de cada vez.
Três perguntas decidem se 2026 vai repetir 2000. A primeira é se o objetivo militar declarado pode ser alcançado.
A zona de 1985–2000 não deteve os ataques com foguetes. O alcance do Hezbollah aumentou durante a ocupação: foguetes que mal chegavam às cidades de fronteira em meados dos anos 1980 já alcançavam Haifa na guerra de 2006. A zona deu ao Hezbollah a experiência operacional e a legitimidade política que o transformaram de milícia em potência militar regional. O objetivo atual, criar condições em que o Hezbollah não consiga disparar a partir do sul do Líbano, é alcançável no curto prazo por meio do controle territorial. Não é alcançável no médio ou no longo prazo sem destruir o Hezbollah como organização, o que vinte e seis anos de operações, incluindo a guerra de 2006 e o conflito de 2024–2026, não conseguiram, ou sem chegar a um acordo político que elimine a razão de ser operacional do Hezbollah e dê à sua base um motivo para aceitar o desarmamento. A zona de 1985–2000 nunca atingiu sozinha um objetivo desse tipo, e o acordo que talvez o atingisse ficou mais difícil de alcançar quanto mais tempo a zona se manteve de pé.
A segunda é se existe uma condição de saída política que não dependa da exaustão. Em 2000, a saída foi impulsionada sobretudo pela pressão interna, acima de tudo a do movimento Quatro Mães, fundado por mães e pais de soldados que serviam no Líbano. Barak esperava incluir a retirada num acordo com a Síria; quando essas negociações fracassaram, em março de 2000, ele saiu unilateralmente. Não houve acordo com o Líbano, nem desarmamento do Hezbollah, nem um arcabouço político que tornasse a retirada estrategicamente duradoura. O cessar-fogo de novembro de 2024 e o acordo-quadro de junho de 2026 construído sobre ele incluem dispositivos sobre o deslocamento do Exército libanês e o desarmamento do Hezbollah, o que equivale pelo menos à arquitetura de uma saída política. Se o Exército libanês consegue implementá-la é a questão central, e a ofensiva atual tornou mais difícil respondê-la.
A terceira é a contraparte. Em 2000, não havia contraparte: não existia nenhuma instituição libanesa capaz de impedir o Hezbollah de operar no sul, nem uma força internacional com mandato forte o bastante para tentar. Em 2026, o Exército libanês existe, mas lhe faltam dinheiro e equipamento, e ele é limitado pelas mesmas dinâmicas confessionais que restringem seu deslocamento para o sul há décadas. O corpo de oficiais do Exército é equilibrado por confissão religiosa, como todas as instituições do Estado libanês; seu orçamento foi devastado pelo colapso econômico do Líbano; seus superiores políticos em Beirute nunca resolveram de todo se o papel do Exército no sul é substituir o Hezbollah ou coexistir com ele. Ao contrário de 2000, uma contraparte existe e começou a agir: em julho, o Exército libanês entrou em Zawtar al-Gharbiyeh, a primeira aldeia de zona-piloto desocupada pelas forças israelenses. Isso dá a 2026 um caminho que a zona de 1985–2000 nunca teve. Se esse primeiro passo vai se tornar uma transferência real depende de o Estado libanês consolidar a capacidade e a vontade política de agir como um verdadeiro parceiro de segurança antes que as operações israelenses criem uma nova geração de ressentimentos para o que quer que venha depois do Hezbollah.
O exército que retomou o castelo de Beaufort tem o registro do que aconteceu da primeira vez: os dezoito anos, os cerca de 250 soldados mortos na zona, o colapso do ELS, a declaração de Nasrallah e as duas décadas em que essa declaração moldou os pressupostos estratégicos da região. O ministro da Defesa de Israel disse que suas tropas ficarão ali como parte de uma nova zona de segurança.
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Mídia
Parte da cerca que divide Nicósia – Wikipedia
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