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Este artigo foi traduzido automaticamente. A versão original está disponível em inglês.

O memorando de entendimento que Estados Unidos e Irã acertaram em meados de junho de 2026 era um marco de 14 pontos com um pavio de 60 dias. Suspendia os combates, prometia reabrir o Estreito de Ormuz à navegação comercial, oferecia isenções das sanções sobre o petróleo e, segundo a versão iraniana, acesso a fundos congelados, e comprometia os dois lados a negociar um acordo definitivo. Sobre o urânio altamente enriquecido do Irã, dizia apenas que as partes decidiriam seu destino, no mínimo diluindo-o. Sobre o enriquecimento, prometia mais conversas, e assim deixava em aberto a pergunta que define toda negociação nuclear com o Irã há vinte anos: se Teerã aceitará o “enriquecimento zero” como condição para um acordo.

O memorando não sobreviveu ao próprio prazo. Uma rodada de conversas de alto nível, em Bürgenstock, na Suíça, no fim de junho, criou grupos de trabalho sobre o dossiê nuclear e sobre o monitoramento. Depois os bombardeios recomeçaram em menos de duas semanas, Trump declarou o memorando “encerrado” em 8 de julho, e o prazo de 60 dias expirou em 17 de agosto sem acordo.

Em outubro de 2026, ainda não há acordo. No início de outubro, o vice-presidente JD Vance defendeu uma redução “significativa” da capacidade de enriquecimento do Irã, e não sua eliminação, o que pareceu um abrandamento da linha de Washington e uma admissão tácita do problema contido na exigência de enriquecimento zero.

O enquadramento público trata a questão como um impasse conhecido: os EUA exigem a máxima concessão, o Irã exige a máxima retenção, e em algum ponto do meio está um acordo com o qual os dois lados conseguem conviver. Esse enquadramento interpreta mal a exigência, que não pode ser negociada para baixo como se fosse um número. Nenhum Estado com uma indústria de enriquecimento própria e madura jamais abriu mão do enriquecimento numa negociação; o Iraque só perdeu seu programa depois de uma derrota militar e sob imposição do Conselho de Segurança. A realidade técnica do enriquecimento de urânio explica por quê.

Uma só máquina para combustível e para bombas

Uma centrífuga a gás não sabe para que está sendo usada. O hexafluoreto de urânio gasoso entra no rotor, gira a velocidade supersônica, e os isótopos mais pesados de U-238 migram para fora enquanto o U-235, mais leve, se concentra perto do eixo. A fração enriquecida é retirada e alimenta a centrífuga seguinte, e a seguinte, e a seguinte. Encadeie um número suficiente delas numa cascata e a concentração de U-235 sobe: dos 0,7% encontrados no urânio natural para os 3% a 5% usados no combustível de reatores de potência (o JCPOA limitou o Irã a 3,67%), para os 20% usados em reatores de pesquisa e na produção de isótopos medicinais, até os 90% que caracterizam o material para armas.

Não existe uma chave com a etiqueta “civil” e outra com a etiqueta “armas”. O nível de enriquecimento é uma variável contínua. A mesma cascata que produz combustível para reatores produz material para bombas se você acrescentar estágios ou reciclar o produto como matéria-prima. Uma cascata configurada para 3,67% pode ser voltada para a produção de armas reorganizando o fluxo do gás por equipamentos que já existem. Quanto tempo isso leva depende da configuração e da matéria-prima, mas nenhum tipo novo de máquina é necessário.

Em junho de 2025, o Irã havia acumulado 440,9 quilos de urânio enriquecido a 60%, a um curto passo técnico do grau militar. Nenhum outro Estado sem armas nucleares produziu mais que traços de laboratório nesse nível. Depois do ataque americano de 22 de junho de 2025, o general Dan Caine, chefe do Estado-Maior Conjunto, disse que os três principais complexos, Natanz, Fordow e Isfahan, haviam sofrido “danos e destruição extremamente graves”. Analistas independentes avaliaram que os ataques israelenses e americanos tinham na prática destruído o programa iraniano de enriquecimento por centrífugas: a maior parte das centrífugas de Natanz eliminada ou seriamente danificada, os salões de Fordow atingidos por doze GBU-57 Massive Ordnance Penetrators, a instalação de conversão de urânio de Isfahan arrasada.

Bombas podem arrasar prédios e máquinas, mas nem elas nem uma exigência de enriquecimento zero conseguem remover o que os engenheiros iranianos sabem. Os ataques de junho de 2025 mataram quase vinte cientistas nucleares de alto escalão, mas a maior parte do corpo de engenharia nuclear do Irã sobreviveu, assim como seus arquivos de projeto de centrífugas, sua competência em ciência dos materiais e seu saber de fabricação. Ao longo de duas décadas, o Irã projetou e construiu por conta própria sucessivas gerações de centrífugas, desde a primitiva IR-1, baseada em projetos obtidos originalmente por meio da rede de A.Q. Khan, até a IR-6, que realiza aproximadamente cinco a dez vezes o trabalho de enriquecimento de uma IR-1. Essa capacidade vive na cabeça dos engenheiros e na memória institucional do programa que os formou.

As gerações de centrífugas: de peças alheias à capacidade própria

O programa iraniano de centrífugas começou com plantas roubadas. A IR-1 era uma cópia da P-1 paquistanesa, ela própria derivada dos primeiros projetos holandeses que A.Q. Khan levou do consórcio de enriquecimento URENCO, nos Países Baixos, nos anos 1970. Era tosca, pouco confiável e quebrava o tempo todo. Mas o Irã não parou na cópia. Ao longo de duas décadas, engenheiros iranianos projetaram a IR-2m, a IR-4, a IR-5 e a IR-6, uma máquina tão distante da P-1 original que chamá-la de descendente é generosidade. O Irã fabricou essas máquinas no próprio país, em oficinas onde os inspetores da AIEA não conseguem entrar desde fevereiro de 2021. Essa progressão de componentes comprados para projeto e fabricação próprios separa o Irã da Líbia, que comprou peças da P-1 da rede de Khan mas nunca dominou a engenharia de centrífugas. É também por isso que desmontar equipamentos não equivale a desarmar.

Alguns países abriram mão de armas nucleares ou desmontaram programas nucleares. A África do Sul construiu seis ogivas e as desmontou voluntariamente em 1990–91, pouco antes de aderir ao TNP, quando o apartheid chegava ao fim. A Líbia entregou seus componentes de centrífugas em 2003. Mas nenhum dos dois casos se encaixa no padrão que a exigência de enriquecimento zero pressupõe. A Líbia nunca dominou a engenharia de centrífugas; comprou peças da prateleira da rede de Khan. O programa sul-africano nem sequer se apoiava em centrífugas, e o país renunciou às suas armas voluntariamente durante uma transformação política interna, não sob pressão de um adversário em nome do controle de armas.

A categoria que importa é a dos Estados com capacidade própria e madura de enriquecimento e de fabricação de centrífugas, cujos cientistas projetaram, construíram e operaram suas próprias cascatas. Nenhum Estado dessa categoria jamais aceitou uma exigência de entregar essa capacidade, seja no âmbito do TNP, seja no do JCPOA, seja em qualquer mesa de negociação desde 1945. O Irã pertence a essa categoria, e o enriquecimento zero lhe pede que saia dela.

O que o controle de armas conseguiu fazer

Os acordos que conseguiram conter programas de enriquecimento em funcionamento foram construídos em torno dessa física, e não contra ela. O modelo que funciona é o de limite mais monitoramento: não se tenta eliminar a capacidade, porque não há como retirar o conhecimento adquirido. Em vez disso, limita-se o que um Estado pode fazer com ela, em níveis de enriquecimento, tamanho dos estoques e número de centrífugas, e monta-se uma arquitetura de monitoramento invasiva o bastante para flagrar violações antes que virem armas.

O JCPOA foi a versão mais ambiciosa desse modelo já construída. Seus limites numéricos eram limiares: um teto de enriquecimento de 3,67%, um limite de 300 quilos para o estoque de hexafluoreto de urânio pouco enriquecido (cerca de 202 quilos de urânio propriamente dito) e pouco mais de 5.000 centrífugas IR-1 enriquecendo urânio, todas em Natanz, com cerca de mil outras mantidas em Fordow para trabalhos que não envolviam urânio e o excedente armazenado sob lacre da AIEA. O acordo também redesenhou instalações: Fordow deixou de ser uma usina de enriquecimento e virou um centro de pesquisa onde nenhum material físsil era permitido, e o reator de água pesada de Arak foi reprojetado para produzir o mínimo de plutônio. Cada uma dessas disposições partia do princípio de que o Irã manteria sua capacidade de enriquecimento. Foram redigidas para manter o Irã a cerca de um ano de obter material suficiente para uma bomba e para tornar muito provável que qualquer movimento nessa direção fosse detectado a tempo de responder.

O monitoramento foi além de tudo o que existira antes. Câmeras de vigilância funcionavam sem interrupção em todas as instalações de enriquecimento declaradas. Monitores de enriquecimento on-line informavam quase em tempo real o que estava sendo produzido e em que nível. A fiscalização recuava ao longo da cadeia de produção de centrífugas até os componentes usados para construir as máquinas, dos tubos de aço maraging aos rotores de fibra de carbono, rastreados do chão de fábrica até a instalação. O que o JCPOA deu aos inspetores foi, no jargão das salvaguardas nucleares, a “continuidade do conhecimento”: um registro ininterrupto do material e dos equipamentos declarados do Irã, sem lacunas em que algo pudesse ser deslocado ou acrescentado sem ser visto.

Essa continuidade foi se desfazendo por etapas. Em fevereiro de 2021, com base numa lei aprovada em resposta às sanções de “pressão máxima” dos EUA, o Irã deixou de aplicar o Protocolo Adicional e as medidas extras de verificação do JCPOA. O acesso complementar a locais não declarados acabou, e com ele as visitas dos inspetores às oficinas onde as centrífugas eram construídas.

Depois, os ataques militares de junho de 2025 despedaçaram o que restava. A AIEA retirou seus inspetores por segurança, e no início de julho o presidente do Irã sancionou uma lei que suspendia a cooperação com a Agência. Um acordo assinado no Cairo em setembro de 2025 estabeleceu procedimentos para inspeções em todas as instalações declaradas, mas nunca chegou aos locais bombardeados. O Irã o declarou extinto em novembro, depois que as sanções da ONU foram reimpostas no fim de setembro. Os inspetores continuaram a visitar os reatores e laboratórios intactos até fevereiro de 2026, mas nunca voltaram a entrar em Natanz, em Fordow ou nos túneis de Isfahan onde estava guardado o urânio altamente enriquecido. Quando a segunda guerra começou, em 28 de fevereiro de 2026, a AIEA retirou seus inspetores mais uma vez.

O Protocolo Adicional da AIEA, o regime reforçado de inspeções que o Irã aceitou no âmbito do JCPOA, dá aos inspetores acesso complementar a qualquer local onde haja indícios de atividades nucleares não declaradas. Eles podem colher amostras ambientais, visitar minas de urânio e usinas de beneficiamento e inspecionar fábricas de centrífugas. Mas até o Protocolo Adicional tem limites. É a ferramenta de que a AIEA precisa para poder dar uma “garantia confiável da ausência de material e atividades nucleares não declarados”, e essa garantia é um juízo construído ao longo de anos de acesso, não uma prova. Num país do tamanho do Irã, com uma base industrial avançada, uma pequena oficina escondida ainda pode passar despercebida.

Durante toda a década de 1980, inspetores da AIEA verificaram as instalações nucleares declaradas do Iraque e não encontraram desvios. Todos os relatórios de salvaguardas voltavam limpos. Enquanto isso, o Iraque mantinha um programa clandestino paralelo de armas, uma operação na escala do Projeto Manhattan, com milhares de cientistas espalhados por vários locais não declarados. Ele só foi exposto depois da Guerra do Golfo, quando inspetores com acesso pós-conflito entraram em instalações cuja existência nunca lhes fora comunicada e encontraram equipamentos de enriquecimento em escala industrial. Descobriu-se que as salvaguardas só haviam examinado o que o Iraque escolhera declarar, e alguns dos locais secretos ficavam logo do outro lado de um aterro, diante de prédios que os inspetores tinham visitado. A experiência iraquiana é a razão de existir do Protocolo Adicional.

A Coreia do Norte expôs a brecha por outro lado. Em 1992, a análise da AIEA do plutônio e dos rejeitos apresentados por Pyongyang revelou várias campanhas de reprocessamento, e não a única que havia declarado, de modo que mais plutônio havia sido separado do que o país admitia. Para descobrir quanto, a agência pediu uma inspeção especial de dois depósitos de rejeitos nucleares não declarados em Yongbyon, e Pyongyang recusou. A Coreia do Norte reagiu anunciando sua saída do TNP em março de 1993, suspendeu a decisão um dia antes de ela entrar em vigor, depois expulsou os inspetores em dezembro de 2002 e abandonou o tratado de vez em janeiro de 2003. Em nenhum dos dois casos a AIEA deixou de monitorar o que conseguia ver; nos dois, as respostas estavam fora dos locais declarados.

O conhecimento que não fica na caixa

No início dos anos 2000, os serviços de inteligência americano e britânico, e depois investigadores da AIEA, reconstituíram a rede de A.Q. Khan. Khan, o pai da bomba paquistanesa, havia vendido projetos e componentes de centrífugas à Líbia, ao Irã e à Coreia do Norte. A Líbia entregou tudo: centrífugas, componentes e documentos de projeto de armas foram levados de avião para os Estados Unidos em 2004. O Irã os usou como ponto de partida e construiu algo melhor. A Coreia do Norte os usou para acrescentar um programa de enriquecimento de urânio à sua bomba de plutônio. A rede de Khan demonstrou um princípio que o enriquecimento zero não consegue superar: depois que o conhecimento nuclear foi transferido, nenhum desmonte de equipamentos o traz de volta. Khan forneceu plantas de centrífugas P-1 e, no caso da Líbia, até um projeto de arma nuclear de origem chinesa. Os equipamentos foram interceptados e levados embora, mas o conhecimento continuou à solta. A exigência de enriquecimento zero trata a capacidade como algo guardado em instalações. A rede de Khan mostrou que ela fica guardada em pessoas, em documentos e na memória institucional, e que prolifera mesmo quando o programa físico é desativado.

O JCPOA deixou o Irã enriquecendo, e o enriquecimento zero não teria poupado aos inspetores seu trabalho mais difícil. Uma paralisação nas instalações declaradas pode ser verificada: em 2004 e 2005, a AIEA lacrou e vigiou os salões de centrífugas e os componentes do Irã enquanto Teerã cumpria uma suspensão voluntária, e o Irã encerrou essa suspensão quando quis. É possível verificar que um país enriquece abaixo de determinado limite nas instalações declaradas, ou que não enriquece nada ali. O que nenhuma inspeção pode provar é que um país com milhares de engenheiros nucleares treinados e décadas de experiência com centrífugas parou de enriquecer em toda parte, para sempre; o máximo que a AIEA pode oferecer é uma garantia que precisa ser renovada ano após ano, enquanto durar seu acesso. Os autores do JCPOA sabiam disso. Construíram o regime de monitoramento mais intrusivo jamais imposto a um programa nuclear em funcionamento, e mesmo ele só conseguia verificar o que conseguia ver.

Se uma exigência de enriquecimento zero fosse de algum modo aceita no papel, deixaria para trás o mesmo problema de verificação, porque o risco que importa é uma oficina oculta, e esse risco é praticamente o mesmo quer os salões declarados operem a 3,67%, quer estejam parados. O modelo de limite mais monitoramento funciona porque verifica algo mensurável. O enriquecimento zero pede aos inspetores que atestem uma ausência permanente, quando tudo o que eles podem oferecer é uma garantia contínua enquanto tiverem permissão para olhar.

O que a guerra não conseguiu mudar

Duas rodadas de bombardeios não resolveram o problema nuclear, embora o que conseguiram tenha sido real. Em junho de 2025, ataques israelenses e americanos arrasaram a maior parte das centrífugas de Natanz, e bombardeiros B-2 atingiram Fordow, enterrada dentro de uma montanha perto de Qom, com as bombas convencionais mais pesadas do arsenal americano.

A segunda campanha, de 28 de fevereiro até o cessar-fogo de 7–8 de abril, foi atrás do que tinha sobrado: as entradas dos túneis que levam aos salões subterrâneos de Natanz, a usina de água pesada de Arak, a usina de concentrado de urânio de Ardakan e uma série de centros de pesquisa de armas. Depois, os analistas de imagens de satélite não encontraram sinal de que o Irã tivesse retomado o enriquecimento.

Imagens de satélite mostraram que, antes da segunda guerra, o Irã havia erguido um telhado improvisado sobre a usina-piloto de enriquecimento destruída em Natanz, muito provavelmente para esconder trabalhos de recuperação, e tinha reaberto a entrada norte dos túneis de Isfahan. Depois da Operação Midnight Hammer, o Pentágono estimou o atraso imposto em aproximadamente dois anos. Uma capacidade que vive no capital humano se regenera, a menos que os próprios seres humanos sejam eliminados, e as mortes de junho de 2025 reduziram esse capital sem apagá-lo.

A segunda guerra também liquidou o que restava do monitoramento do programa iraniano de enriquecimento. Em 27 de fevereiro de 2026, em sua última avaliação antes da segunda guerra, a AIEA não pôde fazer mais que repetir a estimativa da Agência de junho de 2025: 440,9 quilos de urânio enriquecido a 60%. Já não conseguia dizer onde estava esse estoque, qual era seu tamanho atual nem quantas centrífugas o Irã tinha, e alertou para uma “perda da continuidade do conhecimento sobre todo o material nuclear previamente declarado nas instalações afetadas”. No dia seguinte as bombas voltaram a cair, e os inspetores foram embora. Em junho de 2026, eles só tinham voltado para verificações de rotina na usina nuclear de Bushehr; os locais de enriquecimento e o urânio enriquecido continuavam fora de alcance.

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Qualquer novo acordo parte agora de uma situação que o JCPOA nunca precisou enfrentar: inspetores que não sabem quanto urânio enriquecido existe nem onde ele está. A linha de base que levou anos para ser construída desapareceu. Reconstruí-la exige uma cooperação iraniana que hoje não existe, e exige começar do zero num país cujas instalações foram bombardeadas e cuja infraestrutura de monitoramento está apagada há meses.

O próprio estoque é um mistério. Ao que tudo indica, o Irã transferiu boa parte de seu urânio altamente enriquecido para túneis subterrâneos em Isfahan antes dos ataques israelenses de junho de 2025, a Operação Rising Lion. Grossi, o diretor-geral da AIEA, disse que a agência acredita que pouco mais de 200 quilos de urânio enriquecido a 60% estejam guardados ali. O total anterior aos ataques bastava, se enriquecido até o grau militar, para oito a dez bombas. A agência acredita que parte do restante ainda esteja em Natanz e que parte do que estava guardado em outros lugares possa ter sido destruída nos ataques de junho de 2025. Ninguém consegue confirmar. O apagão do monitoramento faz com que os números da própria AIEA sejam estimativas, não contas verificadas.

Duas operações, um problema

A expressão “os ataques aéreos americanos” resume uma operação militar em duas fases e de dois países, cujos efeitos ainda são contestados. Em junho de 2025, Israel lançou a Operação Rising Lion, uma campanha de ataques contra a infraestrutura nuclear e militar iraniana. As forças americanas entraram nove dias depois, em 22 de junho, com a Operação Midnight Hammer, atingindo diretamente Natanz, Fordow e Isfahan. O Irã parece ter previsto a ofensiva e transferido seu material nuclear mais sensível para o complexo de túneis subterrâneos de Isfahan antes do início da operação. Depois, de 28 de fevereiro até o cessar-fogo de abril de 2026, uma segunda campanha americano-israelense voltou a atingir Natanz e se espalhou pela rede mais ampla de pesquisa nuclear e de mísseis do Irã. Boa parte do material que os EUA exigem que o Irã entregue parece ter sido levada para Isfahan por causa das operações militares que precederam a exigência, e os ataques de junho de 2025 não o destruíram por completo.

A política iraniana também foi refeita. Ali Khamenei foi morto nos ataques de 28 de fevereiro. Seu filho Mojtaba foi nomeado líder supremo pela Assembleia de Especialistas em 8 de março, e a Guarda Revolucionária se apressou em declarar seu apoio. Em maio, a Reuters noticiou, com base em duas fontes iranianas de alto escalão, que ele havia ordenado que o urânio enriquecido do Irã não deixasse o país, informação que um funcionário iraniano descartou como propaganda. Para um novo líder supremo que chegou ao poder com a Guarda atrás de si, depois que o pai foi morto pelos países que agora exigem que ele entregue o programa nuclear, há pouco espaço político para a capitulação.

A seção nuclear do memorando refletiu tudo isso adiando tudo isso. O lema americano era “no dust, no dollars”: o Irã entrega seu urânio altamente enriquecido antes que qualquer alívio econômico comece a fluir. Era uma posição de abertura para a janela de 60 dias, nunca um termo acertado, e a janela se fechou antes que alguém o pusesse à prova. O destino do estoque ficou em aberto: fora do Irã, algo que Mojtaba Khamenei teria descartado, ou diluído dentro do país, o patamar mínimo fixado pelo memorando. O mesmo valeu para tudo o que dizia respeito a uma suspensão do enriquecimento: como funcionaria, quanto tempo duraria, quem a verificaria e o que aconteceria quando um futuro presidente americano concluísse que o acordo não estava funcionando.

O relógio de 60 dias se esgotou em 17 de agosto com as questões do enriquecimento e do estoque sem solução. A questão da verificação, aquela que determina se algum acordo pode se sustentar, ganhou um grupo de trabalho em Bürgenstock e nada mais.

A disputa pelos anos

O que os dois lados discutiam, na primavera de 2026, era um número. Os EUA propuseram uma moratória de vinte anos para o enriquecimento. O Irã respondeu com três a cinco anos. Trump a princípio rejeitou a proposta de sua própria equipe. “Não gosto dos 20 anos”, disse, antes de indicar que poderia aceitá-la com garantias “reais”.

Vinte anos contra no máximo cinco soa como uma diferença que os dois lados poderiam dividir. Cada número, porém, se apoia numa teoria diferente.

O número americano faz sentido se um programa adormecido se degrada ao longo de duas décadas, de modo que vinte anos de enriquecimento zero corroam o conhecimento institucional e a base industrial o suficiente para alongar de forma permanente os prazos de ruptura (o chamado breakout). Há uma lógica nisso: engenheiros se aposentam, o conhecimento tácito se apaga, os equipamentos de fabricação enferrujam. Mas a teoria pressupõe que a capacidade de enriquecimento está guardada sobretudo em equipamentos, e não em pessoas e instituições, e as seções anteriores mostraram que isso é falso. O Irã já reconstituiu a fabricação de centrífugas depois de outros reveses. A teoria da degradação também pressupõe que o próprio compromisso vai durar vinte anos, o que leva ao segundo problema.

O número iraniano corresponde a uma leitura mais sombria, a de que qualquer compromisso mais longo que o ciclo político mais curto é uma ficção, e o Irã tem provas específicas e recentes para sustentá-la: o governo Trump abandonou o JCPOA em maio de 2018 por decisão do Executivo, sem nenhuma nova violação iraniana, mal dois anos e meio depois da adoção do acordo. Não houve votação no Congresso nem cláusula de gatilho. Um presidente comprometeu os Estados Unidos; o seguinte os descomprometeu. Pela legislação dos EUA, um presidente que pode assumir por autoridade própria um compromisso político não vinculante como o JCPOA também pode abandoná-lo por autoridade própria, quer o compromisso tenha sido previsto para durar cinco anos ou vinte. A ratificação de um tratado, que exige dois terços dos senadores presentes, é politicamente inalcançável para qualquer acordo com o Irã no Senado atual ou em qualquer Senado previsível. Nenhuma das durações vem com uma garantia que o sistema americano possa oferecer.

Foi assim que o último acordo nuclear morreu. A briga pela duração também perde de vista uma questão maior: uma moratória de vinte anos com verificação fraca vale menos que uma moratória de cinco anos com verificação forte.

A duração diz quanto tempo um compromisso deveria durar; isso é uma promessa política. A verificação diz se a trapaça será descoberta; boa parte disso é um problema de engenharia, e a engenharia tem soluções. Essas soluções tornariam secundária a duração da moratória, porque a trapaça teria grande chance de ser detectada a tempo de responder independentemente do que cada lado tivesse prometido no papel.

Nenhum dos lados respondeu à questão da verificação. Ela foi levantada: Grossi participou de duas rodadas de conversas em fevereiro de 2026 para dar assessoria sobre verificação, e a cúpula de junho deu ao monitoramento um grupo de trabalho próprio. Mas nenhuma resposta viável entrou em nada do que os dois lados acordaram, e é fácil entender por quê: responder com honestidade obrigaria cada lado a dizer o que seu próprio sistema político não consegue entregar. Os EUA teriam de explicar como qualquer acordo sobrevive à próxima eleição, e o Irã teria de explicar como a Guarda Revolucionária honra o que o Ministério das Relações Exteriores assina. Então os dois discutiram números.

O que Teerã não consegue entregar

O programa nuclear iraniano também foi um argumento de soberania, construído deliberadamente ao longo de três décadas. A defesa interna do enriquecimento se apoiava numa tese específica: a de que uma energia nuclear dependente de combustível fornecido pelo Ocidente deixaria o Irã refém das mesmas sanções que já haviam paralisado sua economia. Khamenei pai disse isso com todas as letras num discurso em 4 de junho de 2025, nove meses antes de sua morte: “Se tivermos cem usinas nucleares mas nenhuma capacidade de enriquecimento, elas não valem nada… Se não enriquecermos nós mesmos, teremos de estender a mão à América para pedir esmola — e ela vai impor condições.”

Esse argumento sustenta a defesa política do programa há trinta anos e, como se apoia num histórico real de sanções, qualquer sucessor em Teerã o herda junto com o cargo.

A narrativa da soberania foi concebida para tornar politicamente intocável uma capacidade específica. O enriquecimento zero obrigaria o Irã a abrir mão tanto da capacidade quanto do argumento que justificou construí-la. O Irã já aceitou limites antes: suspendeu o enriquecimento do fim de 2003 ao início de 2006 e respeitou os tetos do JCPOA durante anos depois de 2016. Desistir do enriquecimento para sempre é uma concessão de outra ordem, e nenhum ator político em Teerã poderia fazê-la e esperar continuar no poder, qualquer que fosse o temperamento dos líderes iranianos, porque o programa foi construído justamente para tornar essa concessão politicamente impossível.

A situação de Mojtaba Khamenei agrava isso, e a razão está na estrutura que o cerca. Ele chegou ao poder com o apoio da Guarda Revolucionária, e muitos o veem como alguém que deve o cargo a ela. Seu pai, o líder supremo anterior, foi morto pelos Estados Unidos e por Israel, os países que agora exigem que o Irã abra mão do enriquecimento. Um líder nessa posição tem menos margem para ceder no programa que a Guarda considera seu instrumento de dissuasão do que qualquer um de seus antecessores teve, e o mesmo valeria para qualquer pessoa nesse cargo nessas condições.

A Guarda e o programa

A “posição do Irã” sobre o enriquecimento não é uma posição única. A Guarda Revolucionária guarda o programa e o considera um instrumento estratégico de dissuasão, não apenas um projeto de energia. Em março de 2022, depois de uma série de ataques de sabotagem, a Guarda criou um órgão próprio, o “Comando de Proteção e Segurança dos Centros Nucleares”, que assumiu a segurança das instalações e formalizou seu interesse institucional. A distância entre a posição negociadora do governo civil e o interesse institucional da Guarda é estrutural. Qualquer acordo que o governo civil assine também precisa ser honrado por uma organização cujos interesses, orçamento e identidade política estão atrelados à continuidade do programa. O “cumprimento” iraniano depende, portanto, de mais do que a sinceridade de um presidente ou de um chanceler. Depende de as instituições que guardam o programa honrarem os compromissos assumidos pelas instituições que negociam.

Teerã também lê a lição da Líbia ao contrário de Washington. Autoridades americanas e israelenses citaram repetidas vezes o desarmamento líbio de 2003 como modelo do que o Irã deveria fazer. Kadafi entregou seus programas de armas nucleares e químicas. O Ocidente o recebeu de volta, o comércio foi retomado e as relações diplomáticas se normalizaram. Oito anos depois, aviões de guerra da OTAN impuseram uma zona de exclusão aérea sobre a Líbia, os rebeldes tomaram Trípoli, e Kadafi foi arrancado de uma tubulação de drenagem e morto diante das câmeras.

Autoridades iranianas citam essa sequência desde 2011 como um estudo de caso sobre o que acontece quando se abre mão da única coisa que torna caro atacar você. O cálculo de Teerã hoje não é o de Trípoli em 2003, mas outros Estados que pesam a opção da bomba, a Coreia do Norte de forma mais aberta, apontaram o destino da Líbia como prova contra o desarmamento.

A guerra de 2026 reforçou essa lição: o país que se desarmou em 2003 foi derrubado em menos de uma década, enquanto o que não se desarmou foi atacado duas vezes, e seu saber nuclear sobreviveu às duas rodadas; a segunda nem tocou nos túneis de Isfahan, onde se acredita estar boa parte de seu urânio.

Assinar um acordo e cumpri-lo são coisas diferentes. Limites temporários que deixam o programa de pé são uma coisa; o fim permanente do enriquecimento é outra, e diante dele o sistema político iraniano foi construído para dizer não. O programa está entranhado nas teses fundadoras do regime, reforçado por trinta anos de investimento político e agora cimentado por uma guerra que matou o líder supremo anterior. Uma exigência de enriquecimento zero não consegue alcançar o objetivo americano nem mesmo se um negociador iraniano assinar um papel que a conceda.

O problema mais estreito

Se o enriquecimento zero é inalcançável e a disputa sobre a moratória é uma briga por procuração, um acordo que se sustente teria de seguir um desenho que está na mesa há anos.

O conhecimento iraniano sobre enriquecimento não pode ser confiscado; o Irã o tem há décadas. O que um acordo pode fazer é garantir que, se o Irã enriquecer além dos níveis acordados ou em instalações não declaradas, seja flagrado rápido o bastante para que a resposta seja crível. Seus negociadores teriam de aceitar que algum risco de trapaça permanece e tornar o risco de detecção alto o bastante para dissuadir, com prazos de ruptura longos o bastante para que a detecção desencadeie uma resposta antes que material para armas seja produzido em quantidade.

A arquitetura de verificação que isso exige tem três componentes: acesso, continuidade e velocidade. Acesso significa o Protocolo Adicional da AIEA em pleno vigor, indo além das salvaguardas básicas sobre as instalações declaradas até o acesso complementar onde quer que haja suspeita de atividades não declaradas, com o respaldo de inteligência por satélite que os EUA e seus aliados compartilhariam com os inspetores da AIEA. Continuidade significa restaurar a linha de base destruída pelo colapso do monitoramento em 2025–2026: câmeras de vigilância, monitoramento da cadeia de produção de centrífugas e contabilidade de materiais reconstruídos do zero. Velocidade significa direito a inspeções por denúncia com prazos de resposta medidos em horas, em vez do mecanismo de disputa do JCPOA para pedidos de acesso contestados, que podia se estender por até vinte e quatro dias, uma janela que críticos do acordo na área de controle de armas consideravam larga o bastante para esconder violações em pequena escala.

Um acordo também precisa de consequências para a trapaça. O mecanismo de snapback da Resolução 2231 foi concebido para ser imune ao veto. Ele invertia o procedimento normal do Conselho de Segurança, de modo que a continuidade do alívio das sanções exigia um voto afirmativo, o que significava que qualquer membro do P5 sozinho podia bloquear essa continuidade e provocar a reimposição automática. O E3 o acionou no fim de agosto de 2025. Um projeto de resolução do Conselho de Segurança para manter o alívio das sanções fracassou em 19 de setembro, as tentativas russas e chinesas de adiar o processo não deram em nada, e as antigas sanções da ONU voltaram em 28 de setembro, junto com a exigência das antigas resoluções de que o Irã suspendesse todo enriquecimento. O mecanismo jurídico funcionou, mas faltou credibilidade política à sua aplicação: o Irã rejeitou o snapback como “nulo e sem efeito”, e os Estados Unidos, a parte que tinha abandonado o JCPOA em 2018, não estavam em posição de invocar um acordo que haviam deixado. Qualquer novo mecanismo de consequências precisa sobreviver àquilo a que o último não sobreviveu: uma troca de governo nos EUA.

A saída americana do JCPOA não fechou a porta aos inspetores de imediato, mas desencadeou a cadeia de eventos que a fechou, e o monitoramento que levou anos para ser construído agora precisa ser reconstruído do zero, supondo que o Irã coopere, algo que ele tem poucas razões para fazer depois de ter sido abandonado pela parte que exigiu o monitoramento. A cegueira atual da AIEA em relação ao Irã começou com a retirada de 2018. Cada ruptura política desde então arrancou mais uma camada de verificação, até que a Agência deixou de enxergar por completo o programa iraniano de enriquecimento. Construir um novo acordo exige construir uma nova linha de base de monitoramento. Exige também um meio de essa linha de base sobreviver a um futuro presidente americano que conclua que o acordo não está funcionando, e ninguém encontrou esse meio até agora.

Qualquer acordo duradouro também exige que Israel não saia dele a bombas no instante em que perceber que um limiar está sendo cruzado. Israel mostrou que ataca a infraestrutura nuclear iraniana sozinho, como fez em junho de 2025, e ao lado dos Estados Unidos, como em fevereiro de 2026. Um acordo que não inclua a anuência israelense dura até a próxima avaliação estratégica de Israel, e não mais. Um analista israelense, Danny Citrinowicz, argumenta que é um acordo, e não outra guerra, o que melhor protege Israel, e que o país precisa apoiar um se quiser que seus ganhos militares durem.

Os elementos técnicos de uma arquitetura de verificação viável são bem conhecidos: restrições aos modelos avançados de centrífugas, limites de estoque abaixo do patamar de material para armas e a arquitetura de monitoramento descrita acima, todos eles problemas de engenharia solucionáveis.

Os elementos políticos são mais difíceis: um compromisso americano que sobreviva a uma troca de presidente, um Israel que aceite um acordo que permita algum enriquecimento e segure o fogo enquanto o acordo se sustentar, e uma Guarda Revolucionária que honre os compromissos assumidos pelos civis que negociam. Foi isso que o relógio de 60 dias não teve tempo de resolver. Nada disso apareceu no memorando.

Os 60 dias expuseram esses obstáculos, em vez de resolvê-los. O relógio já se esgotou uma vez e, quando isso aconteceu, a questão de como verificar qualquer acordo não tinha passado de um grupo de trabalho.

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Mídia

Comparação entre MRBM (mísseis balísticos de médio alcance) e IRBM (mísseis balísticos de alcance intermediário). – Wikipedia

Principais fontes e referências

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